Thursday, February 12, 2009

Eiiiiiiiiiiiiii


Do alto dos meus tacões finos, bem vos vejo. Tontos, aflitos, a saltitar de aqui para ali.

Vejo as vossas faces sofridas de olhos esbugalhados de tanto ver televisão, deslumbro os vossos insuportáveis filhos a fazer mais uma birra de camarim.

Gostava eu de descer dos meus tacões e abraçar-vos, afagar-vos o ego, esbofetear a canalha, dizer-vos ao ouvido que amanha vai estar sol e tudo vai ser diferente.

Mas são de betão as minhas botas e delas não posso sair.
Por mais que grite ou gesticule, por mais alto que as palavras saltem da minha boca, nada ouvis, pois a distância que nos separa não sendo muita é intransponível.

Cá em cima faz sol, amarelo, redondo, provocador… Mas por mais força que imprima ao pescoço, não consigo parar de olhar ai para baixo.

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Monday, February 9, 2009

Upsss…

Upssssssss………………………………
Desculpem, mas acho que me esqueci de me lembrar, que mora aqui alguém.
Na verdade não me esqueci, tenho simplesmente a vista turva, com tanta loucura que rodopia à nossa volta.
E como não tenho nada doce para dizer e como para amarga já basta a vida, desejo-vos apenas uma boa semana prometendo voltar já, já, com uns baldes de confiança, para poder adubar com vontade os corações mais incrédulos.

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Tuesday, January 20, 2009

Com uma prenda atráz das mãos…

Pede-se desculpa pela ausência.

Espero que gostem.
Aqui

Baba Yaga - Terra
Roberta Flack - Hey That´s no way
Alexandria Lorez - Send in the clowns
Madeline Peyraux - Dance me to the end off love
Jack Terrason - La Javanesse
Nancy Sinatra - Bang Bang
Minnie Riperton feat. José Feliciano - Light my fire
Joe Bataan - Ordinay guy
Soul Bossa Trio - Ain´t no Sunshine
Donny Hathway - Jealous guy
Allen Toussaint - Sweet touch of love
Percy Faith - Pata Pata
Music for TV Diners - Curly Shurly
Montefiori Cocktail - Quando Quando Quando
Golden Hour - Can´t help folling in love

Até breve.

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Friday, November 28, 2008

E?

- Morreste?

- Quem?

- Tu.

- Eu? Não, adormeci…

- Tanto tempo?

- Sim.

- E agora?

- E agora?

- Sim, e agora que me contas?

- Conto que gostava de ter mais para contar, conto que o meu outrora optimismo tem   sido cruelmente esmagado por gente que nem sequer me conhece…

A bem da verdade talvez não tenha nada para contar… Conto os dias, as noites ás vezes. Há muito que deixei de contar estrelas.

Ainda assim há dias em que acordo com energia redobrada, com fantasia no olhar e alguma força nos braços, mas mal passo a soleira o silêncio da rua apodera-se de mim, as casas tornam-se mais vazias e os rostos transeuntes ainda mais tristes.

- E ainda por cima hoje está de chuva!

- É… Hoje está de chuva.

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Tuesday, October 7, 2008

Hora da explicação…

Depois…

Enfim…

Bem… E se as pessoas não morressem, se não houvesse funerais, flores, lágrimas, corações partidos, mágoas e saudades?

Se simplesmente na hora certa cada um fosse depositado num apartamento igual a todos os outros e os que ficassem, simplesmente se esquecessem dos que foram, sem remorsos nem medos.

Os dois últimos textos navegam nesta possibilidade, eventualmente absurda…
Talvez um dia volte a ela, talvez um dia acrescente mais algumas linhas a este momento.

Ainda assim quase consigo cheirar o apartamento, há tantos apartamentos vazios, abstractos, castanhos.
Viver a eternidade a ouvir Brel e a ler revistas antigas, de páginas gastes e fotografias démodé.

Enfim…

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Sunday, September 21, 2008

Agora não .03


Com trinta centímetros de fundo por setenta de largo a arca encerra em si mais de cem anos de histórias, umas vividas, outras sonhadas, algumas até cantadas, e a cada vez que se abre o mofo que as conserva invade a casa, inquietando os que nela outrora despejaram tudo aquilo que foi seu.

Daqui a cinco minutos a porta da sala irá se abrir, o esboço do ultimo adeus organizará o espaço vazio e tudo aquilo que somos passará a fomos, sem choros nem lamentos, pesares ou saudade.

- Eu sou o …

- Somos todos.

- Sente-se, que a partir de hoje este será o seu mundo.

 Na sala do quinto piso do n.º 184 da Rua da Conceição o mundo é um sofá, o tempo vive sentado e tudo o que viveu é apenas mais uma página num livro à muito lido que pousa empoeirado no fundo da ultima prateleira da sala das visitas.

- Vá lá, ao menos conta-me alguma coisa, uma historia ao menos, mas das que fazem rir que do chorar já eu verti muitas…

O padrão geométrico da sala invade-nos a alma como se de um filho se trata-se, primeiro conquista-nos com a simplicidade das suas formas, depois entram-nos na alma, roubando-nos alegremente a paz até ao ultimo dos nossos dias.

Pontuando a parede uma lareira toscamente rebocada de chocolate, embala pacientemente um pedaço de madeira que do Verão ao Inverno enche a sala de movimentos e pequenos ruídos que violentam o silêncio das boca mudas.

Os móveis são como são, ou pelo menos como deveriam ser, de madeira de Sucupira habilmente envernizada, transpirando pelos poros apáticos dezenas de anos de vida hirta.

As senhoras da casa apresentam-se de bata branca, cabelo preso aparentemente curto na generalidade de tom acobreado, despojadas de brincos anéis ou qualquer outro tipo de artefactos que remetam para um outro viver que não este. Rematam o figurino com um sorriso plastificado que se senta sobre qualquer emoção ao desejo.

- Sabe que quem o trouxe já chamou o ascensor.

-Já desceu…

Sonharam outrora que os elevadores eram o símbolo do novo mundo, defendiam que  nas ruas, praças ou passeios podíamos caminhar solitariamente fugindo de qualquer encontro, mas nos elevadores o embate é obrigatório, convive-se mais dizia-se.

Teremos mais amigos?

Não me lembro de alguma vez ter feito amigos num elevador, não me lembro sequer de algum dia ter trocado palavras de entusiasmo com um desconhecido dentro daquelas paredes de lata. Sempre detestei elevadores e todos estes mecanismos da vida moderna, detesto os botões, abomina-me o gesto automatizado do ligar e desligar, ligar e desligar, ligar e desligar.

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Wednesday, September 10, 2008

Agora não .02

- Desenha-me qualquer coisa, uma laranja um avião sei lá, ou canta, isso, canta-me uma musica velha. Brel. Esqueçamos juntos o que pode ser esquecido que a idade já nos permite, dá-me as pérolas de chuva desse país onde o chão nunca viu agua, vá dá-me agora a mão que a força já me falta sequer para imaginar o amanha…

- Agora não.

De bonito tudo isto tem pouco, mas feio não é, que as coisas pequenas raramente são feias. Carrega antes nos ombros a trágica sina Corbusiana, a vontade fracassada de ser outra coisa para além daquilo que se é, o desejo obtuso de mudar o mundo a partir de dentro, que acabou esborrachado contra a parede que o espartava do próprio mundo.
Sente-se no maplle, saboreia-se no bar, no papel de parede de padrão geométrico, o ar carregado de um outro tempo que sonhador quis ser este.

- Agora não.

Disfarçados de Eritrócitos ou Leucócitos, a correr no sangue da vida moderna, de pés sobre um piso de borracha com bolinhas pretas já gastas, agarrando firmemente as mãos à grade de madeira, umas atrás das outras, as famílias, por vezes em grande numero ,outras apenas por intermédio da empregada de servir, acedem ao quinto piso do n.º 184 da Rua da Conceição, morada de senhora de garra que noutros tempos foi pioneira no serviço a que todos viravam a cara.

De um passo alcança-se a campainha e mesmo sendo célere o atendimento, o castanho texturado dos azulejos que revestem as paredes do hall transforma a espera em horas. A penumbra da espera ilumina-se com o sorriso fabricado que abre a porta e repete monocordicamente as boas vindas.

- A senhora já vem.

Um qualquer gesto mais entusiasta alcança o tecto, que mais parece o livro sobre a desajeitada cabeça da Fair Lady, verticalizando as costas mesmo daqueles que já tocam com o queixo no chão de tabuinhas de madeira de pinho encaixadas entre si em espinha, recriando sobre os pés as costas de um réptil gigante. Nas paredes dois quadros, assimetricamente dispostos ostentam aguarelas de cavalos e seus cavaleiros em cenário romântico, transportando as mentes mais férteis para paisagens bucólicas de amores desencontrados. No ar uma aroma a girbérias embriaga-se a espaços com o burburinho de fundo que ousa fugir por entre as frinchas das portas entreabertas, denunciando a presença de outros.

- Seja bem vindo.

- É que sabe, isto não é um negócio, é para o que nascemos.

As despedidas são feitas aqui, os últimos adeus, os derradeiros beijos. Há uma pequena arca onde se enterram as lembranças conjuntas, os sonhos e fracassos, que quando o ascensor descer tudo na memória será apagado e desta visita restará apenas um recibo que posteriormente deverá ser apresentado no Ministério.

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Wednesday, August 13, 2008

Quem??

Domênica domingava num Domingo, linda, toda de branco*.

E que bom é domingar à terça ou quarta, mesmo sem roupa, deitado na relv,a fitando os negros discos do Cartola que giram pacientemente por baixo da agulha.

Mesmo que o Verão pareça Inverno e as tardes noites, sento-me de sorriso rasgado numa cadeira de plástico a pescar. Pescar pessoas num mar de pessoas que não se sabem peixes, usando pão doce como isco e sorrisos como anzol.

Porque hoje é Agosto…

* Jorge Benjour


 

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Thursday, July 17, 2008

Considerações acerca das…*


Palavras

São coisas redondas que me saem da boca, tropeçando-me ingenuamente nos dentes.

São desenhos.

Riscos de som, irresponsavelmente atirados contra cadernos de folhas transparentes.

Palavras são castelos e praias, com dunas
polvilhadas crianças brincar descalças.

Vêm em ondas, vão-se em vento e desfazem-se em espuma.

As minhas palavras…


*Estas inúteis considerações nascem do carinhoso comentário da menina com Nome de Rua Quieta, ao meu texto anterior.
Sim, são as palavras.

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Monday, July 7, 2008

Chiiiiiiiiiiiuuuuuuuu…


Ninguém imagina como me doí a cabeça.
Como parece que o mundo está sentado em cima dela, exercendo uma pressão de tal dimensão que os olhos  querem saltar para cima da mesa.
Até o cabelo me dói.
Ainda à uns meses descrevia aqui como me sentia personificar uma qualquer personagem do Boris Vien com o crânio a derreter e de repente tudo está de volta.
Parece que o Gardel se alojou no meu pavilhão auricular direito e lá dentro, sentado num banquinho de pau, entoa tangos desconexos.
Até o cabelo me dói.
Pequenos martelos de cabo dourado repenicam-me repetidamente sobre a testa alva.
Sinto-me a olhar vagamente para o mundo como se estivesse fora dele e quanto mais falam comigo mais longe os vejo.

 

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