Com trinta centímetros de fundo por setenta de largo a arca encerra em si mais de cem anos de histórias, umas vividas, outras sonhadas, algumas até cantadas, e a cada vez que se abre o mofo que as conserva invade a casa, inquietando os que nela outrora despejaram tudo aquilo que foi seu.
Daqui a cinco minutos a porta da sala irá se abrir, o esboço do ultimo adeus organizará o espaço vazio e tudo aquilo que somos passará a fomos, sem choros nem lamentos, pesares ou saudade.
- Eu sou o …
- Somos todos.
- Sente-se, que a partir de hoje este será o seu mundo.
Na sala do quinto piso do n.º 184 da Rua da Conceição o mundo é um sofá, o tempo vive sentado e tudo o que viveu é apenas mais uma página num livro à muito lido que pousa empoeirado no fundo da ultima prateleira da sala das visitas.
- Vá lá, ao menos conta-me alguma coisa, uma historia ao menos, mas das que fazem rir que do chorar já eu verti muitas…
O padrão geométrico da sala invade-nos a alma como se de um filho se trata-se, primeiro conquista-nos com a simplicidade das suas formas, depois entram-nos na alma, roubando-nos alegremente a paz até ao ultimo dos nossos dias.
Pontuando a parede uma lareira toscamente rebocada de chocolate, embala pacientemente um pedaço de madeira que do Verão ao Inverno enche a sala de movimentos e pequenos ruídos que violentam o silêncio das boca mudas.
Os móveis são como são, ou pelo menos como deveriam ser, de madeira de Sucupira habilmente envernizada, transpirando pelos poros apáticos dezenas de anos de vida hirta.
As senhoras da casa apresentam-se de bata branca, cabelo preso aparentemente curto na generalidade de tom acobreado, despojadas de brincos anéis ou qualquer outro tipo de artefactos que remetam para um outro viver que não este. Rematam o figurino com um sorriso plastificado que se senta sobre qualquer emoção ao desejo.
- Sabe que quem o trouxe já chamou o ascensor.
-Já desceu…
Sonharam outrora que os elevadores eram o símbolo do novo mundo, defendiam que nas ruas, praças ou passeios podíamos caminhar solitariamente fugindo de qualquer encontro, mas nos elevadores o embate é obrigatório, convive-se mais dizia-se.
Teremos mais amigos?
Não me lembro de alguma vez ter feito amigos num elevador, não me lembro sequer de algum dia ter trocado palavras de entusiasmo com um desconhecido dentro daquelas paredes de lata. Sempre detestei elevadores e todos estes mecanismos da vida moderna, detesto os botões, abomina-me o gesto automatizado do ligar e desligar, ligar e desligar, ligar e desligar.