Sunday, September 21, 2008

Agora não .03


Com trinta centímetros de fundo por setenta de largo a arca encerra em si mais de cem anos de histórias, umas vividas, outras sonhadas, algumas até cantadas, e a cada vez que se abre o mofo que as conserva invade a casa, inquietando os que nela outrora despejaram tudo aquilo que foi seu.

Daqui a cinco minutos a porta da sala irá se abrir, o esboço do ultimo adeus organizará o espaço vazio e tudo aquilo que somos passará a fomos, sem choros nem lamentos, pesares ou saudade.

- Eu sou o …

- Somos todos.

- Sente-se, que a partir de hoje este será o seu mundo.

 Na sala do quinto piso do n.º 184 da Rua da Conceição o mundo é um sofá, o tempo vive sentado e tudo o que viveu é apenas mais uma página num livro à muito lido que pousa empoeirado no fundo da ultima prateleira da sala das visitas.

- Vá lá, ao menos conta-me alguma coisa, uma historia ao menos, mas das que fazem rir que do chorar já eu verti muitas…

O padrão geométrico da sala invade-nos a alma como se de um filho se trata-se, primeiro conquista-nos com a simplicidade das suas formas, depois entram-nos na alma, roubando-nos alegremente a paz até ao ultimo dos nossos dias.

Pontuando a parede uma lareira toscamente rebocada de chocolate, embala pacientemente um pedaço de madeira que do Verão ao Inverno enche a sala de movimentos e pequenos ruídos que violentam o silêncio das boca mudas.

Os móveis são como são, ou pelo menos como deveriam ser, de madeira de Sucupira habilmente envernizada, transpirando pelos poros apáticos dezenas de anos de vida hirta.

As senhoras da casa apresentam-se de bata branca, cabelo preso aparentemente curto na generalidade de tom acobreado, despojadas de brincos anéis ou qualquer outro tipo de artefactos que remetam para um outro viver que não este. Rematam o figurino com um sorriso plastificado que se senta sobre qualquer emoção ao desejo.

- Sabe que quem o trouxe já chamou o ascensor.

-Já desceu…

Sonharam outrora que os elevadores eram o símbolo do novo mundo, defendiam que  nas ruas, praças ou passeios podíamos caminhar solitariamente fugindo de qualquer encontro, mas nos elevadores o embate é obrigatório, convive-se mais dizia-se.

Teremos mais amigos?

Não me lembro de alguma vez ter feito amigos num elevador, não me lembro sequer de algum dia ter trocado palavras de entusiasmo com um desconhecido dentro daquelas paredes de lata. Sempre detestei elevadores e todos estes mecanismos da vida moderna, detesto os botões, abomina-me o gesto automatizado do ligar e desligar, ligar e desligar, ligar e desligar.

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Wednesday, September 10, 2008

Agora não .02

- Desenha-me qualquer coisa, uma laranja um avião sei lá, ou canta, isso, canta-me uma musica velha. Brel. Esqueçamos juntos o que pode ser esquecido que a idade já nos permite, dá-me as pérolas de chuva desse país onde o chão nunca viu agua, vá dá-me agora a mão que a força já me falta sequer para imaginar o amanha…

- Agora não.

De bonito tudo isto tem pouco, mas feio não é, que as coisas pequenas raramente são feias. Carrega antes nos ombros a trágica sina Corbusiana, a vontade fracassada de ser outra coisa para além daquilo que se é, o desejo obtuso de mudar o mundo a partir de dentro, que acabou esborrachado contra a parede que o espartava do próprio mundo.
Sente-se no maplle, saboreia-se no bar, no papel de parede de padrão geométrico, o ar carregado de um outro tempo que sonhador quis ser este.

- Agora não.

Disfarçados de Eritrócitos ou Leucócitos, a correr no sangue da vida moderna, de pés sobre um piso de borracha com bolinhas pretas já gastas, agarrando firmemente as mãos à grade de madeira, umas atrás das outras, as famílias, por vezes em grande numero ,outras apenas por intermédio da empregada de servir, acedem ao quinto piso do n.º 184 da Rua da Conceição, morada de senhora de garra que noutros tempos foi pioneira no serviço a que todos viravam a cara.

De um passo alcança-se a campainha e mesmo sendo célere o atendimento, o castanho texturado dos azulejos que revestem as paredes do hall transforma a espera em horas. A penumbra da espera ilumina-se com o sorriso fabricado que abre a porta e repete monocordicamente as boas vindas.

- A senhora já vem.

Um qualquer gesto mais entusiasta alcança o tecto, que mais parece o livro sobre a desajeitada cabeça da Fair Lady, verticalizando as costas mesmo daqueles que já tocam com o queixo no chão de tabuinhas de madeira de pinho encaixadas entre si em espinha, recriando sobre os pés as costas de um réptil gigante. Nas paredes dois quadros, assimetricamente dispostos ostentam aguarelas de cavalos e seus cavaleiros em cenário romântico, transportando as mentes mais férteis para paisagens bucólicas de amores desencontrados. No ar uma aroma a girbérias embriaga-se a espaços com o burburinho de fundo que ousa fugir por entre as frinchas das portas entreabertas, denunciando a presença de outros.

- Seja bem vindo.

- É que sabe, isto não é um negócio, é para o que nascemos.

As despedidas são feitas aqui, os últimos adeus, os derradeiros beijos. Há uma pequena arca onde se enterram as lembranças conjuntas, os sonhos e fracassos, que quando o ascensor descer tudo na memória será apagado e desta visita restará apenas um recibo que posteriormente deverá ser apresentado no Ministério.

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