Cúcú…
Sinto em mim um desconforto tal que mais parece que não caibo no meu corpo.
Sinto que tortuosamente remo em águas paradas e centímetro a centímetro vou enterrando esta tosca barca que me carrega, até ao dia em que juntos afundaremos de vez.
Sinto que cada vez mais os meus membros se perdem em tiques absurdos. Os dedos já não vivem sem o contacto com pequenos objectos, sejam eles porcas, parafusos, controles remotos ou todo o tipo de botões.
Sinto em mim uma transparência tal, que já mal consigo ver a sombra que o meu corpo provoca no chão, quando banhado pelo sol do fim de tarde.
A necessidade que o telefone toque, ânsia que a porta bata e que alguém entre e que esse alguém seja alguém que ainda não conheço, mas sei de antemão que descontroladamente me irei apaixonar ao primeiro olhar. É que eu acredito no amor à primeira vista.
E como detesto este tipo de lamentações deprimidas e melodramáticas, vou antes fazer como o Caetano e beber uma Coca-Cola, que não faz mal e alimenta e depois de ter a sede saciada voltarei a entrar no meu antigo quarto, pé ante pé espreitando a possibilidade que te poder novamente ver nua.