À medida que saltamos por cima da vida e a enfiamos dentro de uma chávena, as pequenas asas do contentamento começam a despontar no altos das nossas orelhas, rasgando docemente a pele que envolve a cartilagem.
São asas avariadas, asas que não nos fazem voar nem um centímetro, ainda assim, mesmo sabendo do seu defeito vamos acreditando que se quisermos, se realmente nos apetecer, no dia em que o nosso coração gritar mais alto, poderemos. Poderemos sair disparados em direcção ao mundo como se ele realmente fosse nosso e abraça-lo e brincar com ele, beija-lo e espezinha-lo imaginando-o uma mulher.
Hoje, ao subir as escadas, buscando distraidamente as Chelsea Girls da Nico deparei como uma imagem que nem nas minhas mais subversivas fantasias alguma vez tinha sonhado. Era carne na mais completa amplitude da palavra, carne desejável, daquela que nunca imaginamos desejar, carne que nos aquece o sangue, que me aqueceu o corpo todo, ao mesmo tempo que espalhava imagens pervertidas no meu olhar.
Já com as Chelsea Girls a acariciar-me a mão direita, saindo trauteante do meu ex quarto deparei-me com a mais embriagante das cenas que a minha retina alguma vez bebeu. Margarida, a minha irmã adoptiva, em contra luz ao fundo do corredor, como deus a trouxe a mundo.
Lentamente, milhares de fósforos foram-se acendendo em cada poro do meu corpo, ateando em uníssono dentro de mim, um fogo tamanhas proporções, que me julguei em cinzas.
Passadas doze horas os meus olhos ainda não esqueceram o pescoço lânguido, o torso desenhado sustendo arrogante o peito juvenil, à falta de capacidade para melhor descrever, digo-vos apenas que Alma, musa de Klint e Mahler, diva do Beijo e rainha de Viena pavoneia-se sem pudor pelos corredores de minha casa
Perguntar-se-ão os meus atentos amigos,
- E depois?!…
Depois foi um escândalo, deixei as Chelsea Girls estatelarem-se no chão e fugi. Fugi disparado pelas escadas a baixo como uma criança assustada com os foguetes da Páscoa.
De então para cá tenho-me dedicado à cidra fresca e a deslumbrar o vazio, projectando em loop aquela imagen de tons sépia, no branco cru do tecto.