Tuesday, June 26, 2007

E depois?

Depois virão os peixes, de vários tamanhos e cores e nas suas redes os pescadores de braço dado com as varinas, envoltas nas suas dermes ressequidas reflectidas nos olhos esverdeados.

E o sol com turistas de fim de tarde, banhados nas areias finas que também virão com o mar.

E a leve brisa norte, que noite após noite nos fará sonhar com veleiros e piratas.

Perguntar-me-ão para quê que tudo isto serve e eu respondo perguntando de que servem as promessas a que vos habituaram e nas quais sempre votas-te?

Serviram até hoje de alguma coisa?

Sois felizes?

Sentis que é nesta terra que quereis viver e que ela recompensa com carinho os vossos esforços diários?

Pois eu não.

Não é este o concelho que quero para mim e muito menos para os filhos que hão-de vir.
 

Portanto deixem-me sonhar, sonhar que é possível, sonhar que juntos conseguiremos, pois acordado já não acredito.

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Friday, June 22, 2007

Utópico eu?!?!


Mas afinal o que são 780,00 km?

Nada garanto-vos eu.

 

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Tuesday, June 19, 2007

Agarrem-se às bandeiras…

Ah, este calor que me consome e me faz sorrir sem razão aparente, mesmo detestando gatos e não nutrindo especial carinho por cães.

Afazeres começa a pulsar de forma descontrolada e não é a eminência do Verão ou o retorno dos emigrantes que lhe acelera o sangue. É que as eleições estão à porta e este que aqui vedes, ou aqui ledes se assim o preferires, é parte nuclear dessa magnífica manifestação de liberdade.
Eu, Alcebíades José, sou oficialmente candidato à Presidência Adjunta do Concelho Directivo Afazerense e o mar é a minha promessa.

Não cairei nas demagogias políticas que outros como eu fazem. Sou e serei um homem realista que quer apenas o melhor, ou melhor, o justo para este povo que tanto tem sofrido nos últimos anos, esquecido e abandonado neste canto de terra, banhado apenas por um pobre rio que foge para sul durante o Verão.

Mas tudo isso chegará ao fim, no dia em que  Alcebíades José se sentar na penosa mas responsável “Cadeira do Poder”. Não prometo carros nem mulheres de Leste, concertos jazz ou jantaradas. Não prometo empregos nem subsídios, ensino ou saúde. Comprometo-me apenas o que posso e o que posso é trazer-vos o mar.

Apaguem desses rostos os sorrisos descrentes e enterrem bem fundo o ar sarcástico que o  Alcebíades José só tem uma palavra e se é o mar que ele vos promete, é o mar que tereis, fresco e salgado a banhar-vos as soleiras das portas e a humedecer-vos a plantas dos pés.

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Wednesday, June 13, 2007

Cúcú…

Sinto em mim um desconforto tal que mais parece que não caibo no meu corpo.

Sinto que tortuosamente remo em águas paradas e centímetro a centímetro vou enterrando esta tosca barca que me carrega, até ao dia em que juntos afundaremos de vez.

Sinto que cada vez mais os meus membros se perdem em tiques absurdos. Os dedos já não vivem sem o contacto com pequenos objectos, sejam eles porcas, parafusos, controles remotos ou todo o tipo de botões.

Sinto em mim uma transparência tal, que já mal consigo ver a sombra que o meu corpo provoca no chão, quando banhado pelo sol do fim de tarde.

A necessidade que o telefone toque, ânsia que a porta bata e que alguém entre e que esse alguém seja alguém que ainda não conheço, mas sei de antemão que descontroladamente me irei apaixonar ao primeiro olhar. É que eu acredito no amor à primeira vista.

E como detesto este tipo de lamentações deprimidas e melodramáticas, vou antes fazer como o Caetano e beber uma Coca-Cola, que não faz mal e alimenta e depois de ter a sede saciada voltarei a entrar no meu antigo quarto, pé ante pé espreitando a possibilidade que te poder novamente ver nua.

 

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Monday, June 11, 2007

Cidra a mais talvez…

Imagens de volúpia incestuosa têm-me invadido a mente.

Eu sei que não é coisa bonita, mas sabe bem que só deus sabe.

Toda a cena carrega nos ombros um leve travo a pão com nozes, regado de vinho doce, num fim de tarde de Outono. Talvez seja esse o sabor do pecado.

Mais complicado foi o jantar. Sentar-me ao lado de Margarida, roubar da sua pele um perfume nunca antes procurado, tocar ao de leve o seu olhar, foi tarefa tão sofrida que os talheres me escorregavam das mãos a cada gesto.

Já Margarida essa pareceu-me indiferente a tudo aquilo. Indiferente ao facto de ter passeado nua à minha frente, indiferente ao facto de eu ter fugido a sete pés, indiferente ao facto de me ver a tremer como varas verdes.

Novamente a cidra fresca tem sido a minha salvação, neste quotidiano de chamas que sem aviso me veio envolver.

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Friday, June 8, 2007

Linger on, your pale blue eyes…

À medida que saltamos por cima da vida e a enfiamos dentro de uma chávena, as pequenas asas do contentamento começam a despontar no altos das nossas orelhas, rasgando docemente a pele que envolve a cartilagem.

São asas avariadas, asas que não nos fazem voar nem um centímetro, ainda assim, mesmo sabendo do seu defeito vamos acreditando que se quisermos, se realmente nos apetecer, no dia em que o nosso coração gritar mais alto, poderemos. Poderemos sair disparados em direcção ao mundo como se ele realmente fosse nosso e abraça-lo e brincar com ele, beija-lo e espezinha-lo imaginando-o uma mulher.

Hoje, ao subir as escadas, buscando distraidamente as Chelsea Girls da Nico deparei como uma imagem que nem nas minhas mais subversivas fantasias alguma vez tinha sonhado. Era carne na mais completa amplitude da palavra, carne desejável, daquela que nunca imaginamos desejar, carne que nos aquece o sangue, que me aqueceu o corpo todo, ao mesmo tempo que espalhava imagens pervertidas no meu olhar.

Já com as Chelsea Girls a acariciar-me a mão direita, saindo trauteante do meu ex quarto deparei-me com a mais embriagante das cenas que a minha retina alguma vez bebeu. Margarida, a minha irmã adoptiva, em contra luz ao fundo do corredor, como deus a trouxe a mundo.

Lentamente, milhares de fósforos foram-se acendendo em cada poro do meu corpo, ateando em uníssono dentro de mim, um fogo tamanhas proporções, que me julguei em cinzas.

Passadas doze horas os meus olhos ainda não esqueceram o pescoço lânguido, o torso desenhado sustendo arrogante o peito juvenil, à falta de capacidade para melhor descrever, digo-vos apenas que Alma, musa de Klint e Mahler, diva do Beijo e rainha de Viena pavoneia-se sem pudor pelos corredores de minha casa

Perguntar-se-ão os meus atentos amigos,

- E depois?!…

Depois foi um escândalo, deixei as Chelsea Girls estatelarem-se no chão e fugi. Fugi disparado pelas escadas a baixo como uma criança assustada com os foguetes da Páscoa.

De então para cá tenho-me dedicado à cidra fresca e a deslumbrar o vazio, projectando em loop aquela imagen de tons sépia, no branco cru do tecto.

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