Considerações à cerca do monstro.
Burocracia é um monstro simpático e afável que nos conserva numa mistura de amoníaco e desespero, provocando à generalidade dos seres pensantes uma dupla sensação de conforto e perda.
A burocracia, (e digo “a” porque o ser, é obviamente fêmea, apesar de não fazer distinção no que toca ao sexo das vitimas), cresce no seio da simpatia e da conveniência, mostra-se doce e resoluta enquanto bebé, não recusando auxilio ou sorriso. E todos se socorrem dela, para poupar tempo, para ganhar tempo, para fazer ou desfazer, e a burocracia essa, de sorriso nos lábios borrados de azul, a todos ajuda sem distinção nem sacrifício, que ela ‘e mais um anjo do que um monstro…
Mas o bicho vai crescendo, e lentamente abraçando debaixo das suas asas de veludo escarlate, aqueles que melhor lhe oleiam a engrenagem, e os eleitos vão-se sentindo confiantes, protegidos, importantes até, afinal de contas são íntimos do carinhoso felino, que a esta altura ainda não aprendeu a mostrar os caninos, mas já é alvo de respeito.
E de repente, como no vigésimo primeiro dia de Setembro, sem que ninguém tenha dado por isso o Verão acaba, e após um curto Outono precipitamo-nos no mais frio e agreste dos Invernos, o terno animal virou verme e mina os nossos dias e noites com falsas promessas e deveres esquecidos, e os seus protegidos, outrora frágeis, doces, sempre dispostos, tornam-se os Senhores do animal e ai é vê-los pomposos e distantes nas suas máquinas reluzentes, a responder a quem lhes insufla ego e a carteira e a espezinhar os que apenas querem ver o dever ser cumprido. Afinal de contas para que serve uma relogeira? Será tão complicado de encontrar por essas serranias afora alguém que consiga olhar para uma pedra com um ferro cravado e ali, ler as horas? Ou o nosso Duque, e o seu pai, como o seu avô e todos os antepassados que a esta altura lhe fazem companhia no chá das cinco, inventaram este enredo, para simplesmente justificarem o facto de existirem?
Povo que é povo não se verga à adversidade, arregaça as mangas e segue em frente, ainda que o caminho seja sinuoso e amaldiçoado.