Monday, February 26, 2007

Desculpa, Chavela Vargas não é uma seca.

Tenho vivido grande parte da minha curta existência, mergulhado naquilo que os especialistas e musicólogos apelidam de, desconexão cronológica musical, isto é, quando meio mundo delirava e pontapeava o outro meio, ao som dos Nirvana, eu ouvia Jefferson Airplane, quando Billy Corgan reinava com os seus amestrados Smashing Pumpkins eu delirava com os breaks de bateria dos Led Zeppelin e com os solos infinitos dos Lynyrd Skynyrd, enquanto se gritava bem alto “Firestarter” eu trauteava “Yo ya estoy deseando tener niños, y tu Quique? Oh Yo no…”

E mesmo quando os tropicalíssimos Caetano e companhia fizeram o achamento inverso, já eu estava completamente inscrito na Legião, que a essa altura até já tinha acabado.

Hoje para descontrair e aproveitando o concelho da amiga Teaspoon, que mora já ali na Rua Quieta, decidi ouvir musica com Margarida, ou melhor pô-la a ouvir musica, ao que ela reagiu tremendamente mal.

Quanto mais eu me entusiasmava na apresentação do disco, mais ela se entediava, chegando ao ponto que exclamar baixinho… “isso é uma seca”.

Como o meu coração irradia luz, concentrei-me em músicas para pessoas com o coração iluminado, que são as mais bonitas, mas ainda assim a reacção foi má, péssima.

Enfim, vamos acreditar que foi da dor de cabeça.

Entretanto continuo à espera do telefonema que Carolina, que tarda em chegar…

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Wednesday, February 21, 2007

Isto não é o que parece!!!

Foram os escancarados olhos de Margarida que me acordaram com o seu hálito doce, fazendo-me cócegas nas orelhas.

É que após tão agitada noite acabei por adormecer caído na cama e quando Margarida acordou, já só lhe restavam quarenta centímetros para amparar o corpo. Isto de dormir acompanhado é necessário treino sempre ouvi dizer e treino é coisa que eu não tenho, embora vontade meus amigos, essa não me falta.

No preciso momento em que atordoadamente acordei e constatei a minha situação, percebi o olhar intimidado de Margarida a medir-me o corpo, houve um silêncio, subitamente quebrado pela entrada de rompante da Dona Carminda pelo quarto adentro.
 

A pobre senhora quando viu aquele cenário atirou com o coração para o chão, com toda a força que quase estremeceu a casa, agarrou com as duas mãos o espanto que em corrida lhe queria sair da boca e num gesto de modernidade corada, virou costas e saio.

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Monday, February 19, 2007

Tsssssssssssssssssssss… II

Foi com as mãos, com os pés, facas, garfos e pratos, tachos, panelas, vassouras, esfregonas, cão, casota e coleira, que a minha mãe me atacou, quando viu o estado em que Margarida chegou a casa. Álvaro e Nuno, porque a conhecem desde sempre e porque as suas mães andaram na mesma escola da minha, nem o sobrolho franziram e como eu limitaram-se a olhar para o chão à espera que a tempestade passa-se, é assim que funciona.

Margarida nem capacidades tinha para falar, pois juntando ao álcool e à cabeçada aos dez graus negativos que se faziam sentir lá fora, tudo combinado transformou a sua imagem altiva e distante, num ser praticamente inerte, uma quase morta.

Acho que a minha sorte foi o meu pai não estar em casa, frase que Dona Carminda repetiu centenas de vezes ao longo da noite.

Com algum esforço lá levamos Margarida para o quarto, onde minha mãe a lavou e tratou enquanto me atirava com cortantes e pontiagudos insultos, que eu lá ia defendendo com os olhos pregados no chão.

De súbito e sem pedir licença para entrar, as cores regressaram às faces transparentes de Margarida e uma colossal gargalhada fez a minha mãe saltar da cama, quase batendo com a cabeça no tecto. Daí até ao amanhecer, foi um carnavalesco desfilar de frases sem sentido e gargalhadas despropositadas.

E o pior de tudo, foi ter sido obrigado a velar toda a noite a menina e os seus devaneios.

Ainda assim tudo isto me passou ao lado. O meu coração e a minha cabeça mantêm-se embriagados por esse poderoso licor que é o sorriso de Carolina.

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Friday, February 16, 2007

Tsssssssssssssssssssss…

Falamos pouco, mas sentimos muito, muitas palpitações e comoções, lamentos do tempo perdido ditos com o olhar. A breves espaços ainda nos tocamos de leve, com gestos embaraçados e tímidos, mais em jeito de adolescentes do que de adultos.

Tudo gravitava a minha volta, como se o mundo simplesmente estivesse parado e só os olhos de Carolina se moviam em minha direcção dizendo “eu também”.

Foram os minutos mais felizes da minha vida…

Até que um colossal estrondo assaltou a já ruidosa sala do “Meu Café”. Margarida, de quem eu já me tinha esquecido, precipitou a fronte com tal violência contra a mesa que até aparelhometro musical se engasgou.

Ainda assim o meu distanciamento ao mundo real era tanto que cheguei a dar uma pequena gargalhada, quando Margarida se levantou. Mas de repente, num espasmo de Pollock, uma mancha de sangue rubro e fumegante começou a espalhar-se impacientemente pela sua testa, que por essa altura estava mais branca que a cal.

Álvaro e Nuno, responsáveis por aquele action painting, vestiram o grosso casaco do embaraço, esboçaram uma solução de remédio, em jeito de “isto não está assim tal”, encolheram os ombros e sussurraram em uníssono:

- Talvez seja melhor leva-la para casa.

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Wednesday, February 14, 2007

Oh lá!!!

Lá dentro discutia-se a “Poética do Espaço” segundo Gaston Bachelard, apesar de alguns defenderem, que essa “massa de ar entre muros” pouco ou nada tem de poético. O ambiente para a discussão era criado pelo Miles Davis e o seu Kind of Blue.

Mal a porta se fechou nas nossas costas e os olhos mais enfastiados pela discussão nos descobriram, o espanto invadiu a sala, o momento foi curto mas intenso e a mão de Margarida voltou a agarrar-se ao meu corpo, como se a sua vida naquele momento depende-se da minha presença.

Álvaro e Nuno, correram até nós, e fazendo uma grande algazarra, distraíram a multidão que lá entendeu que estava a mais e, voltou à sua vida.

Sentamo-nos numa mesa e logo dois fumegantes copos de long drink, aterraram nas nossas mãos.

Margarida ainda esboçou um sentido, “eu não bebo álcool”, mas foi completamente em vão.

Efectivamente ela não bebia álcool, daí que ao cabo de meio copo já as palavras lhe saiam enroladas da boca, e as gargalhadas, coisa que até ai eu nunca tinha presenciado, tornaram-se fundas e vigorosas.

Não há nada mais empolgante que uma mulher meio bebida. Os olhos a brilhar, as veias ligeiramente salientes no pescoço alvo, os gestos lânguidos que pousam nas mãos alongadas e finas, como pernas de bailarina, a gargalhada fácil, extremamente fácil às vezes, ainda assim, muito mais doce que a do quotidiano.

O problema é que, como em tudo na vida, é extremamente fina a linha que separa o glamoroso do degradante, muitas estrelas rock que o digam, e Margarida não quis no seu debute fugir à regra.

Ainda antes do fim do copo, já a turbulência invadia a galope o castelo que guarda a lucidez da minha nova irmã, e depois de desmontada a primeira alvenaria da muralha o fim é certo, por mais altivo que seja o rei.

Até que tudo na minha vida mudou…

Pela primeira vez em muitos anos, pela primeira vez em todos os anos, Carolina sorriu para mim, acenou-me de longe, quase juro que franzi-o o sobrolho e por fim sentou-se a meu lado.

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Monday, February 12, 2007

Com os pés na lama.

 
A noite corria serena e meiga apesar do frio afiado que nos gelava o nariz e as palavras de ocasião, que timidamente ia-mos lançando no vazio, à medida que o caminho ficava mais escuro, ou o silêncio mais ruidoso.
Por descuido, porque estava realmente nervoso com aquela situação, enfiei o pé direito numa poça de lama, que sossegadamente esperava que o sol da manha a transforma-se em terra. Margarida riu, riu a bom rir, como que pressentindo a minha inquietação e ao mesmo tempo libertando a dela.
Os dez minutos que separam a minha casa, do Nosso Café, pareceram horas, dias até, e daqueles lentos, daqueles dias em que esperamos uma notícia urgente e os minutos arrastam-se querendo parecer anos.
Lá chegamos. Quando a luz de néon nos apareceu à frente e o ruído já era mais do que muito, Margarida hesitou no passo, baixou a cabeça e agarrou-me com força a mão. O máximo que consegui naquele momento foi arrancar de mim, foi um sorriso que me estilhaçou o rosto e a promessa, que não a deixaria sozinha nem por um minuto, no que redondamente falhei, mas sobre isso, e o peso que o feito me deixou naquele recanto incómodo do coração a que para simplificar, vulgarmente chama-mos de consciência, falarei mais tarde.
 
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Wednesday, February 7, 2007

Mau!!!!!!!!!!!!!!!

 
Mãe – Alcebídes onde vais?
Alcebídes – Vou ali, venho já… (enquanto se prepara para mais uma noite, a secar Carolina com o olhar).
Mãe – E vais sozinho?
Alcebídes – Sim… (enquanto se vê de frente e de perfil, ao espelho).
Mãe – Ai sim?
Mãe – Não… Leva a Margarida contigo.

Ingenuamente, tentei
em silêncio esboçar um horrorizado nãooooooooooo, mas só quem não tem mãe é que não sabe como é que elas são, daí que…
Ainda olhei para Margarida, tentando procurar no seu olhar um qualquer “deixem lá, eu até prefiro ficar em casa”, mas foi em vão. O seu semblante encheu-se de luz, e em menos de quinze segundos apareceu-me na sala, encasacada e prontinha e sair.

De repente o seu ar confiante e conhecedor transformou-se num gigantesco entusiasmo juvenil, que por ser tanto quase dava dava para engarrafar e vender ao litro, (que há muito quem dele precise). Não tive coragem de lhe negar essa alegria.
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Monday, February 5, 2007

Considerações à cerca do monstro.

Burocracia é um monstro simpático e afável que nos conserva numa mistura de amoníaco e desespero, provocando à generalidade dos seres pensantes uma dupla sensação de conforto e perda.

A burocracia, (e digo “a” porque o ser, é obviamente fêmea, apesar de não fazer distinção no que toca ao sexo das vitimas), cresce no seio da simpatia e da conveniência, mostra-se doce e resoluta enquanto bebé, não recusando auxilio ou sorriso. E todos se socorrem dela, para poupar tempo, para ganhar tempo, para fazer ou desfazer, e a burocracia essa, de sorriso nos lábios borrados de azul, a todos ajuda sem distinção nem sacrifício, que ela ‘e mais um anjo do que um monstro…

Mas o bicho vai crescendo, e lentamente abraçando debaixo das suas asas de veludo escarlate, aqueles que melhor lhe oleiam a engrenagem, e os eleitos vão-se sentindo confiantes, protegidos, importantes até, afinal de contas são íntimos do carinhoso felino, que a esta altura ainda não aprendeu a mostrar os caninos, mas já é alvo de respeito.

E de repente, como no vigésimo primeiro dia de Setembro, sem que ninguém tenha dado por isso o Verão acaba, e após um curto Outono precipitamo-nos no mais frio e agreste dos Invernos, o terno animal virou verme e mina os nossos dias e noites com falsas promessas e deveres esquecidos, e os seus protegidos, outrora frágeis, doces, sempre dispostos, tornam-se os Senhores do animal e ai é vê-los pomposos e distantes nas suas máquinas reluzentes, a responder a quem lhes insufla ego e a carteira e a espezinhar os que apenas querem ver o dever ser cumprido. Afinal de contas para que serve uma relogeira? Será tão complicado de encontrar por essas serranias afora alguém que consiga olhar para uma pedra com um ferro cravado e ali, ler as horas? Ou o nosso Duque, e o seu pai, como o seu avô e todos os antepassados que a esta altura lhe fazem companhia no chá das cinco, inventaram este enredo, para simplesmente justificarem o facto de existirem?

Povo que é povo não se verga à adversidade, arregaça as mangas e segue em frente, ainda que o caminho seja sinuoso e amaldiçoado.

O meu pai e mais cinco homens de porte rijo, partiram hoje pelas cinco e cinquenta e cinco da manha, de relógio às costas em busca de alguém…

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