E aí está ela…
À medida que o comboio foi parando e pé ante pé se dirigia para a porta, ultrapassando o pequeno degrauzinho de madeira que vence a diferença de cota entre o interior da carruagem e o apeadeiro, o Sr. Duque foi sentindo a cabeça a agarrar-se de novo aos ombros e o bigode a reconquistar o feudal volume que sempre o caracterizou.
Quando o pé direito pisou as lajes de granito da estação de Afazeres e a multidão aplaudiu de pé a chegada do ilustre senhor e mais ainda, da menina que ele orgulhosamente trazia pela mão, o espectro da Bastilha fugiu de vez do olhar do Sr. Duque, que a esta altura exaltava inflamadamente o brilho do dever comprido.
Aqui tendes a última relojeira viva…, gritou.
A multidão respondeu tão efusivamente, que a imagem de milhares de cabeças decapitadas dos seus antepassados, que há vários dias lhe embaciava a vista e entupia o coração, simplesmente se dissipou no ar, como a geada das manhas de Fevereiro chegando a hora do meio-dia.
E a pescaria não correi mal não senhor, para o estimado Duque. Para além de manter a cabeça intacta sobre os ombros, que as gentes desta terra não brincam com fidalguias incumpridoras, descobriu a última relojeira viva e ainda, por pura e misteriosa ironia do destino encontrou o amor. E tudo isto, imaginem só, numa rua de pouca luz e mau nome.