Wednesday, January 31, 2007

Tremendão II

-…Ainda que os vossos dias se transformem em noites e o caminho das vossas vidas seja tortuoso e obrigue os vossos pés descalços a pisar cortantes e geladas lâminas de granito que serão para sempre os vossos caminhos, ainda assim, mesmo quando exaustos da penosa caminhada que será o vosso fado, capitulares chorosos com os joelhos nus e sangrentos sobre as pedras da calçada, a implorar por um fim, ainda assim eu voltarei. Voltarei para vos tornar o fardo que carregais sobre os ombros ainda mais pesado, para cobrar tudo aquilo que me deveis…

Parece assustador e na realidade é.

Foi com estas proféticas palavras que o Sr. Duque se despediu dele próprio, à medida que violentos golpes de sachola lhe eram projectados no tórax. Com sangue a espirar para todo lado, só a face ficou intacta guardando como uma Polaroid a eterna sensação de agonia daqueles que tiveram tudo, e já não têm nada.

O espectáculo foi medieval, e não faltaram as criancinhas a brincar em redor da execução, e risos e vivas de felicidade.

Ontem, às zero horas e um minuto, a população não perdoou a mentira, agarrou em foices e sacholas e irrompeu pelo palácio do Sr. Duque a dentro, como um animal esfomeado, esbaforido e com os olhas em sangue. Mataram-no com requintes de malvadez, afinal de contas ele enganou-se, enganou uma pobre mulher da má vida e enganou-nos a todos. Nem os requintados bigodes ou os quadros do seus ilustres antepassados lhe valeram na derradeira hora.

A falsa relojeira, apesar da sede de vingança de algumas esposas de fronte enfeitada, foi apenas expulsa da vila, que os tempos são outros e hoje já não se executam inocentes.

O nobre ainda esgrimiu algumas palavras em sua defesa, mas de nada valeram e quando viu que o seu destino estava traçado naquelas alfaias atirou a praga que não nos deixou sem dormir. “Voltarei para vos tornar o fardo que carregais sobre os ombros ainda mais pesado”.

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Monday, January 29, 2007

Tremendão I

Há um disco que me tem acompanhado ao longo da vida e que, apesar de não o ouvir frequentemente é-me impossivel esquecer dele. Redondo e preto, daqueles que na realidade já não há, herdei-o do meu avó paterno, homem que fez e desfez fortuna pelas terras de Vera Cruz, ás custas do açúcar e das ancas das mulatas.

Falo-vos do histórico “Vinicius e Caymmi no ZumZum” acompanhados pelo aconchegante Quarteto em Cy, com as suas joviais vozes afinadas, e com quem ao que consta, o Sr. Alfredo chegou até a tomar cachaças.
Gosto particularmente da carta mil vezes escrita e nunca enviada para Tom Jobim, que o velho diplomata lê vibrante do alto da sua voz quente e compassada.

“…agora é que o tremendão aconteceu mesmo…” diz o capitão do mato e repito eu silenciosamente.
Pois é, no fundo era mais do que óbvio, Margarida assim o diz, com o seu ar de quem sabe tudo de nascença. Não dava para disfarçar o facto de serem nove da manha ao fim da tarde, e de as noites se terem transformado em dias apesar da óbvia falta de luz.

O Sr. Duque esse foi antevendo a tragédia, à medida que a sua cabeça começava de novo a desligar-se do resto do corpo, e os seus bens se despediam de cada vez que ele se cruzava, primeiro com a cama depois as pratas as mesas e credencias, as portas e por ultimo a casa. Todos perceberam que o seu Senhor misturou o coração com a razão.

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Friday, January 26, 2007

Como?!?!

Margarida não falou muito nem pouco, tudo nela se desenvolveu na exacta medida do suficiente. Tudo menos o olhar, esse correu solto. Despiu-nos e percorreu-nos o corpo como se quisesse de uma só vez, entrar no fundo baú que guarda a história das nossas vidas.

Jantamos galinha ao molho pardo e por ser dia de festa, bebemos vinho nos copos especialmente reservados para os dias de festa, obras de arte executadas num tão fino cristal que o liquido que albergam parece já ter nascido suspenso naquela forma ovulada.

No fim, houve direito a leite creme, pacientemente queimado com um ferro em brasa, e Porto.

Margarida comeu com a descrição daqueles a quem nunca faltou nada, manuseando os talheres com uma destreza que me fez entender como nunca, a alcunha que me coube na sorte da vida.

No fim levantou-se silenciosamente, compôs a saia, guardou no bolso um pequeno anel prateado que usa no indicador e encetou um convicto ataque às tarefas domésticas, o qual para meu espanto e aparente gáudio geral, foi bruscamente interrompido pela voz estridente de minha mãe;

- Senta-te minha menina, que o Alcebíades trata disso, para criada já basto eu nesta casa.

(eu??? trato disso???).

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Monday, January 22, 2007

Pronto…

A notícia caiu-me pela cabeça a baixo como um aguaceiro de Verão, deixando-me ensopado em dúvidas.

Acho até, que já entenderam onde tudo isto vai chegar…

Sem discussão nem consulta, estava decidido, haveríamos de adoptar Margarida. E nem todos os meus “mas porquês?” conseguiriam demover a decisão já decidida de minha mãe, ela é simplesmente assim, são todas aliás.

A explicação é elementar, “casa sem mulher não é casa, e eu já estou mais para velha do que para mulher, portanto..”. Por mais sociológicos, económicos ou emocionais que fossem os meus argumentos, que no fundo no fundo também admito, não terem grande fundamento caíram sempre em saco roto, como diz o povo, daí que, amanha Margarida muda-se de armas e com as suas poucas e parcas bagagens para o quarto que foi desde sempre de Ana, a minha doce Ana.

O meu pai esse, coitado, depois de perder a voz aquando da fuga de minha irmã, limita-se a acenar passivamente a cabeça e num silêncio ruidoso encolhe os ombros aconselhando-me a aceitação.

O pragmatismo feminino é coisa que nunca entenderei, vai uma, vem outra.

Ainda assim ganhei sem esforço, gestação ou parto, uma nova irmã, que por já vir grandinha vai-me poupar as explicações básicas, de onde vem o vento? Ou o lua? Seria terrível constatar com esta idade, que não sei explicar nada disso.

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Friday, January 19, 2007

Ko Phi Phi Leh.

 

Mas não é o dramatismo da história que me fascina em Margarida, não é facto de viver sem pai nem mãe nem casa nem nada, sobe este céu que é azul para todos, mas mais cyano para uns que outros.

O que realmente me toca fundo, é o sorriso vago e o olhar blasé que a acompanham pela vida e desarma o coração mais empedernido que se cruze no seu caminho. Margarida é um pequeno farol, de apenas um metro e sessenta, que sobressai por entre a multidão, carregando no seu semblante um profundo sentimento de esperança.


Tudo em si, lembra fotos com aroma e sabor da idílicas praias de Ko Phi Phi Leh.Os seus olhos são de um tão profundo verde que se confundem com as aguas salgadas e quentes do mar da Tailândia, e a sua pele ninguém nega que vem do esmigalhar de milhões de casquinhas de búzios, corais, ostras e outros policromáticos e divertidos animais marinhos.Tivesse ela alguma vez visto o mar, e certamente choraria por finalmente ter encontrado a sua casa.


E chego agora a um ponto da narrativa, onde tudo isto se encaminha rumo ao sentido, porque ao que parece, e esse é o moral da história, Margarida finalmente encontrou a sua casa.

 

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Wednesday, January 17, 2007

Margarida sem nome.

O amanhã chegou sem aviso, sobe a forma de uma mulher.

 

Margarida nasceu sem pai nem mãe nem tias, numa dessas angulosas esquinas que nos fazem repensar a vida.

Cresceu encostada a tudo aquilo que simplesmente não se mexe, uma parede, um ombro, um velho, com uma leveza tão grande que o sentimento de fardo nunca assaltou o coração de quem a sustentou.

Passou de bebé a adulta sem ter aprendido a brincar, dizem até, que para não incomodar ninguém, já nasceu a saber andar.

As roupas que lhe aquecem os dias e lhe rejubilam o ego, há muito foram despidas por outros, e os acessórios, porque adolescente que é adolescente não dispensa os acessórios, está-lhes no sangue independentemente do berço, esses são feitos pela noite adentro, com tudo aquilo que as outras acham dispensável.

Ainda assim estudou, sem eu nunca perceber como.

Desenganem-se aqueles que a esta altura pensam que descrevo uma nova Geni. Margarida com os seus amores e desamores foi mantendo a dignidade num tão alto patamar de intocabilidade, que ninguém sequer questiona ou sussurra a cândida conduta da rapariga.

No fundo Margarida é como uma árvores ou como o rio, por quem passamos frequentemente, às vezes até contemplamos com simpatia, mas depois seguimos o nosso caminho e eles fica lá, até que alguém volte a dispensar dois segundos do seu quotidiano.

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Monday, January 15, 2007

Hello!

Apetecia-me hoje, e desde já me desculpando se isto parecer pretensioso, dizer algo ao mundo.

Nada de mais, apenas um desabafo fútil, de quem tem demasiado tempo livre nas mãos e espaço no coração.

Algo que sei que ele não vai poder ouvir, não porque não queira, porque não pode, o mundo é muito grande mas tem ouvidos muito pequeninos, e como eu, outras centenas de milhares de pessoas anseiam partilhar com ele, algo que lhes arde no peito.

Acho que nunca tinha sido assaltado por esta vontade de abrir vãos ao interior, talvez seja como o whisky, uma questão de idade, ou então… simplesmente não tenho mais nada o que fazer.

Ainda assim, e ciente do insucesso, decidi reclinar-me confortavelmente sobre esta tarde de Domingo, convidar o keith Jarrett para me fazer companhia e dar liberdade às palavras, deixa-las sair das pontas dos dedos, sem terem que fazer parte de uma ideia ou sequer uma frase.

A minha avó continua pacientemente agasalhada na sua pele de linho, os meus pais saíram aperaltados, de braço dado, refazendo pela enésima vez o mesmo percurso, que lhes vê os pés todos os Domingos, as madeiras fumam o longo cigarro do gozo, enquanto vêm a água das chuvas a evaporar-se no ar, o mundo, à semelhança dos maridos de Vinicius funcionam regularmente e eu aqui estou… a pensar neste quotidiano que há seis meses partilho convosco.

E não foram seis meses fáceis devo-vos confessar, fiquei sem irmã, vi a minha avó perder a cabeça, o que roubou precocemente a vós ao meu pai e mais importante do que isso, o brilho dos olhos de minha mãe.

E ainda assim te pergunto ó bola azul que me sustentas, e amanha???

 

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Friday, January 12, 2007

Não brinques mais comigo.

Carolina  - Olá

 Eu - Olá.(silencio de aproximadamente 30 seg.)

Carolina   - E então essa passagem de ano?

Eu - Mais ou menos como a tua, estivemos no mesmo sítio…

(frase dita em tom de piada mas com facas a dilacerar o músculo cardíaco)

Carolina   - Pois, então foi boa.

Eu - Pois, então foi…

Carolina   - Bem, até logo.

Eu - Até logo…

Interrogo-me seriamente como é possível amar loucamente alguém que estabelece connosco este tipo de diálogos…

Enfim, desígnios de um coração que certamente bomba menos sangue que o que deveria.

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Wednesday, January 10, 2007

Cuidado Sr. Duque…

Ano Novo, nova relojeira.

A vida finalmente reencontrou o seu ciclo normal nas margens do rio Sereno.

As bolas de Natal, maneando a anca disseram-nos adeus e numa fila indiana partiram, com o silenciosa promessa de novo regresso lá para os finais do ano.

A feira, a missa, a escola, o pão, a rega e tudo mais que se rege por horários humanos, passa por um período de adaptação de à nova regente e ao seu estilo progressista, o qual permitam-me que lhe diga tem batido os mais intransponíveis recordes cardíacos, angariando em menos de dez dias, mais corações do que muitas Marilyns ou Brigittes. E é vê-los sob a sua varanda hora após hora a indagar a quantas andam.

O Duque, esse faz que não vê e tenta não ser visto, quando todas as madrugadas se esgueira pela porta traseira da casa da regente.

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Monday, January 8, 2007

E aí está ela…

À medida que o comboio foi parando e pé ante pé se dirigia para a porta, ultrapassando o pequeno degrauzinho de madeira que vence a diferença de cota entre o interior da carruagem e o apeadeiro, o Sr. Duque foi sentindo a cabeça a agarrar-se de novo aos ombros e o bigode a reconquistar o feudal volume que sempre o caracterizou.

Quando o pé direito pisou as lajes de granito da estação de Afazeres e a multidão aplaudiu de pé a chegada do ilustre senhor e mais ainda, da menina que ele orgulhosamente trazia pela mão, o espectro da Bastilha fugiu de vez do olhar do Sr. Duque, que a esta altura exaltava inflamadamente o brilho do dever comprido.

Aqui tendes a última relojeira viva…, gritou.

A multidão respondeu tão efusivamente, que a imagem de milhares de cabeças decapitadas dos seus antepassados, que há vários dias lhe embaciava a vista e entupia o coração, simplesmente se dissipou no ar, como a geada das manhas de Fevereiro chegando a hora do meio-dia.

E a pescaria não correi mal não senhor, para o estimado Duque. Para além de manter a cabeça intacta sobre os ombros, que as gentes desta terra não brincam com fidalguias incumpridoras, descobriu a última relojeira viva e ainda, por pura e misteriosa ironia do destino encontrou o amor. E tudo isto, imaginem só, numa rua de pouca luz e mau nome.

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