Tremendão II
-…Ainda que os vossos dias se transformem em noites e o caminho das vossas vidas seja tortuoso e obrigue os vossos pés descalços a pisar cortantes e geladas lâminas de granito que serão para sempre os vossos caminhos, ainda assim, mesmo quando exaustos da penosa caminhada que será o vosso fado, capitulares chorosos com os joelhos nus e sangrentos sobre as pedras da calçada, a implorar por um fim, ainda assim eu voltarei. Voltarei para vos tornar o fardo que carregais sobre os ombros ainda mais pesado, para cobrar tudo aquilo que me deveis…
Parece assustador e na realidade é.
Foi com estas proféticas palavras que o Sr. Duque se despediu dele próprio, à medida que violentos golpes de sachola lhe eram projectados no tórax. Com sangue a espirar para todo lado, só a face ficou intacta guardando como uma Polaroid a eterna sensação de agonia daqueles que tiveram tudo, e já não têm nada.
O espectáculo foi medieval, e não faltaram as criancinhas a brincar em redor da execução, e risos e vivas de felicidade.
Ontem, às zero horas e um minuto, a população não perdoou a mentira, agarrou em foices e sacholas e irrompeu pelo palácio do Sr. Duque a dentro, como um animal esfomeado, esbaforido e com os olhas em sangue. Mataram-no com requintes de malvadez, afinal de contas ele enganou-se, enganou uma pobre mulher da má vida e enganou-nos a todos. Nem os requintados bigodes ou os quadros do seus ilustres antepassados lhe valeram na derradeira hora.
A falsa relojeira, apesar da sede de vingança de algumas esposas de fronte enfeitada, foi apenas expulsa da vila, que os tempos são outros e hoje já não se executam inocentes.