Friday, December 29, 2006

O Melhor dos Anos…

Smoking, Glenn Miller, brilhantina, bolas douradas, lots of champagne, sapatos de verniz, olhares indiscretos sobre o agitador decote de Carolina e sonhos, muitos sonhos.
É mais um ano que acaba ou sendo senhores de um coração optimista, é um novo ano que começa e com ele novos dias e novas noites, adolescentes aventuras de sofá, fantasias e descobertas.O problema do Natal é o fuso horário. Passamos um ano impacientemente à sua espera e quando ele pela manha de 24, carinhosamente nos acorda com carícias no rosto e beijos nas pálpebras, a ânsia é tanta que o devoramos mais avidamente do que conseguimos digerir. Dois minutos e pufff, lá se foi o Natal e as pinceladas encarnadas, as barbas, o cheiro a canela no ar, o azevinho de plástico, os pinheiros e bolas.Ma a coisa sadicamente não fica por aqui. Ainda com os olhos franzidos de espanto, nada recompostos de tão rompante experiência, somos violentamente projectados contra o fim de mais um ano, que vem em forma de comboio na nossa direcção e é como se invisíveis laminas nos percorressem o corpo, com festas e passas, objectivos por cumprir, a nostalgia do fim e a energia que vem da raiz dos cabelos e nos empurra de braços abertos para mais trezentos e sessenta e cinco dias de vida, que se quer intensa e vivida. Enfim, o Melhor dos Anos para todos.

Alcebíades José

 

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Wednesday, December 27, 2006

Mais um Natal se foi…

Tudo correu como convenientemente se esperava. Às zero ponto zero horas do dia 25 de Dezembro e como sempre acontece nesse dia e a essa hora, as bolas iluminaram-se por de dentro projectando no espaço todas as imagens e histórias que lhes servem de pele. Em uníssono cantaram incessantemente as melodias da nossa memória e até aos primeiros raios de sol nos brindarem com o seu quente abraço, foi uma festa só. A mesa como todos os anos, foi posta na praça principal da vila, mesmo por de baixo das frígidas varandas do Sr. Duque e da Relojeira.
Não houve presentes nem barrigudos senhores de barbas brancas. Houve apenas nós e o nosso calor e os nossos sorrisos, corpos e mãos dadas.E como todos os anos houve choros e memórias, gargalhadas que incendiaram o frio da noite.

Fica apenas o lamento de aparentemente nos termos enganado no dia mas enfim, quem não tem relógio comemora quando lhe apetece. 

 

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Saturday, December 23, 2006

Ui uixeu a meri crismas.

O dia nasceu ruborizado, certamente ansioso, e com a boca a salivar.

A boca dos dias não é como a da gente sempre disse a minha avó, é maior e mais funda e dela sai um aroma a phalaenopsis acabadas de colher, e sabe a nozes com pão.

Tenho andado por casa nos últimos dias. A sociedade pouco me atrai e a saudade do que não conheço cada vez mais de consome. 

Sinto a falta de Ana, a Minha Doce Ana, pareceu-me ouvir os seus olhos quando entrei na floresta, pareceu-me que o calor das suas mãos me aqueceu as faces. Pareceu-me apenas….


 

A todos um Bom Natal,

 

Alcebíades José.        

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Wednesday, December 20, 2006

O futuro salvar-nos-á…

Se o passado é frio e húmido, o futuro ao que consta, gravita em tons de lilás e algodão doce. Abraça-nos quente como a chaminé de uma lareira que desde sempre queima anos secos de videira. Mas se entrar na história é tarefa para poucos, penetrar no amanha é empreitada que requer o mais fino e cyano dos sangues.
O Sr. Duque abandonou à três dias o buraco do passado e galopa a toda a velocidade em busca do último senhor do tempo, que espera impacientemente por nascer.
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Monday, December 18, 2006

Neofigurativo Expressionista!!!

Depois de dias de árdua labuta, a desilusão bateu-nos à porta sobe a forma ortogonal de um “não”. Ao que parece as Bolas de Natal são no seu essencial partidárias do conservadorismo realista pelo que, uma arvore de Natal construída em cubos de granito é uma atitude por demais dadaista para servir de lar, ainda que temporário, às redondas senhoras.

Catorze metros de altura, umas desenas de milhares de cubos do mais puro granito de Boticas, e centenas de metros de estradas destruídas, perdão, intervencionadas, não foram suficientes para convencer o núcleo duro da esférica massa critica.

Assim, vimo-nos forçados a queimar os manifestos, enterrar Duchamp, erguer os machados bem alto e avançar em passo largo para o coração do bosque, onde um dia fiquei sem irmã, afim de regatear a bom preço mais uma arvore à mãe natureza.

O negocio foi feito. Quinze metros de madeira maciça do mais branco pinho larisso, com verdejantes e viçosas ramagens. Foram precisos trinta e dois homens, três carros e seis juntas de bois para arrastar tão imponente amostra da força natural para o átrio da igreja. Ela ainda gemeu e esbracejou, ao fim ao cabo ninguém gosta de ser decepado e arrastado por bestas para longe da sua família, mas as cordas foram mais fortes e os cânticos populares acabaram por adormece-la.

 

“seja bem vinda viçosa senhora

que viçoso é o meu coração…”

 

As bolas com os beiços meio de lado lá aceitaram a nova casa e pronto, tudo a postos para mais um Natal… 

                   

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Friday, December 15, 2006

Força Sr. Duque

Ao que consta o Senhor Duque conseguiu finalmente invadir a húmida gruta do passado. Lá dentro encontrou encolhido atrás das memórias, o senhor do tempo, que ao contrário do que ansiosamente se espera recusou-se a ressuscitar a arte, da qual é à muito o ultimo servo e senhor.
Mas a esperança será a ultima a morrer e contrariando alguns sussurros que sugerem, como quem não quer a coisa, a aquisição de um relógio público, descobriu-se que na imensidão do futuro existe alguém que nasceu com o dom de subjugar o tempo.

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Wednesday, December 13, 2006

Boa sorte Sr. Duque.

Diz-se que quem tem azar no amor triunfará no jogo…

Saíram-me na rifa meia dúzia de bolas bulimicas e apáticas, com comboinhos estampados na cara e sininhos no corpo, poderá haver combinação mais absurda???

O Duque continua o seu périplo em busca do que dizem, ser o ultimo relojeiro vivo no país e até agora nada. Ao que parece desde o início da era digital que o respeitável soberano do tempo se refugiou no passado e entrar no passado é tarefa ainda mais complicada do que sair dele.

Entretanto por cá, há uma praia por debaixo de cada estrada, mas os paralelos em vez de servirem para destruir autoridades e montras, servem para edificar a maior árvore de Natal em cubos granito alguma vez vista.


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Monday, December 11, 2006

Sejam bem-vindas redondas senhoras.

Há-as de todas as cores, tamanhos e brilhos. De plástico, vidro ou papel, ingénuas, assumidas, discretas, com manchas, pintas, relevos ou simplesmente simples. As bolas de natal chegaram de mochila às costas, saco cama em riste e simplesmente acampam nas nossas vidas. Por mais um ano, filas e filas de bolas e bolinhas multicolores marcham sobre Afazeres, em jeito de exército Napoleónico em miniatura e simplesmente instalam-se onde melhor lhes convém.
Na realidade nada disto é para nós novidade. É em festa que todos os anos se recebem as bolas. A população reúne-se em frente à casa do Duque, entoando uma música relativamente imbecil e monocórdica mas que ganha no dia oito de Dezembro um carácter especial e é o próprio Senhor, que do alto da sua varanda recebe de braços abertos e sorriso rasgado a mais redonda bola.  

“…sejam bem-vindas
redondas senhoras
à nossa redonda vida

sejam bem-vindas
lustrosas senhoras
às nossas opacas vidas

que sois como o amor
reluzentes senhoras
pois que escolheis-nos a nós
e não nós a vós…”

Mas em pleno Maio de 68 não há lugar a tradições. O Duque há muito que se fez à estrada, em busca de um novo relojeiro, que nos dias que correm ou se é um Duque eficiente ou se é um Duque decapitado.
 Assim e pela primeira vez desde sempre as bolas chegaram sem pompa nem o mínimo de circunstancia.
E já sabe, bola que é bola, amua quando não lhe é dada a devida atenção.

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Thursday, December 7, 2006

O dia em que o tempo parou…

Muitas e variadas coisas se passaram aqui na vila durante o curto mas tortuoso período em que vesti o hábito e decidi encerrar-me na secular cela dúbia, em busca do meu Eu.

A chuva continua a saciar todas as sedes mesmo aquelas que há muito foram saciadas transformando Afazeres numa pequena Veneza.

Mas a situação mais dramática, ouso até dizer trágica, prende-se com a súbita cegueira de Belarmina, a eterna relojeira da vila.

Do alto dos seus quase 110 anos, Dona Belarmina é a matriarca da vila, senhora das horas, controla desde o início dos tempos, com um veemente pulso de ferro o tempo dos Afazerenses. É ela a proprietária e gerente do único relógio da vila e é do cimo da sua varanda que tudo começa ou acaba. O trabalho, a escola, a missa, as festas, o Verão, o Inverno, tudo.

Vinte e quatro horas por dia ao serviço, Belarmina está sempre aposto s para, ao toque de um sininho, localizado sobe a sua monumental varanda, meter a cabeça de fora e gritar com a inigualável vós de cantadeira de homilia, seteeeeeeee e quinnnnzeeeeeeeee.

Mas ao que consta, algures entre as seis e trinta e cinco e as sete e quarenta e dois a luz simplesmente desapareceu do perspicaz olhar da anciã senhora. Dizem as costureiras que o veneno finalmente lhe saltou da língua para os olhos, deixando-a eternamente na noite. Opiniões a parte fica apenas a confusão.

O tempo deixou de existir em Afazeres, nem trabalho, nem missa, nem escola, nem nada. No início, ao que consta foi a loucura, a “liberdade libre”, o desprendimento real, festas e abraços, sorrisos e danças à chuva, o Maio de 68 chegou finalmente às margens do rio Sereno.

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Monday, December 4, 2006

Nem o eu nem o outro…

Não há nada de poético a correr-me nas veias, não há rimas nem sonetos a embalar-me os dias, o doce bafo de Homero não me acariciou a face à nascença e mesmo o bucólico sorriso de Sá de Miranda só muito a espaços me ilumina o caminho.

Apesar disso várias vezes tomei café e fumei longos cigarros de enrolar com o Mário. Tardes de Outono banhadas a silêncio e olhares lânguidos perdidos na paisagem. Na altura o café era sempre amargo e a comida demasiado salgada. Para despertar os sentidos dizia-se.

Várias vezes fomos a banhos às praias do Norte, onde amontoávamos colecções intermináveis de objectos ainda por inventar.

Aqui deitado na cama, tantos anos volvidos, senti de repente o ar invadido por um ardente hálito a absinto, como que se um fantasma se tivesse deitado a meu lado e pegando-me na mão, me indica-se o caminho, sussurrando-me baixinho ao ouvido, assim mesmo como se embala o sono a uma criança.

Foi aí que entendi quem sou.

Ao contrário do poeta, eu sou o eu e sou o outro e tudo o mais que está no intermédio, na fronteira e mesmo além. Sou nós, vós e ao mesmo tempo os outros, aqueles que não conhecemos ou alguma vez viremos a conhecer. Os que habitam debaixo das pedras, das ervas e lagos, dentro de caixas de betão, cartão ou seda, os de perto e os de longe. Não há em mim tédio nem pilares, nem cheios nem vazios, proximidades, distancias, tracções ou compressões.

Há exactidão e limites transponíveis que vão de mim para os outros, como se tudo e todos vivessem em felicidade dentro do meu peito.


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