Velvet Goldmine.
Isto durante o dia, porque à noite, como uma Cinderela deleitável, o ”Nosso Café” enche os seus enormes e catarrentos pulmões de opiáceos multicolores e transveste-se, por vezes de arem sem odaliscas ou de palácio ou de gruta com brilhantes estalactites.
As paredes beijes pintam-se de um luminoso carmim, o tapete Cairo, imigra para a Pérsia e a bola de espelhos inútil e descriminada enquanto o sol governa, ganha títulos e terras quando a Lua sobe ao poder e tudo e todos se movem aos seus mandos, desmandos e rotações frenéticas com luzes e brilhos de mil e uma cores.
José Manel filho assume o posto de Zé Manel pai, ou “takes over” como ele pomposamente gosta de designar a sucessão temporária ao trono.
A bebida flutua abundantemente entre copos, bocas e mentes despertas, a música, sai vibrante de um curioso aparelhometro à muito inventado por Zé Manel avó, que a compõe em tempo real, conjugando infinitas variáveis, que vão desde a temperatura exterior, à interior, quantidade de álcool consumido, nível de fumo no ar, número de gargalhadas emitidas por minuto, cm2 de pele exposta e mais um sem fim de factores de igual importância, que todos conjugados, calculados, cuidadosamente medidos e armazenados em ínfimas placas de cobre, resultam em horas e horas de alienação musical.
Zé Manel filho, desfere todos os golpes da vida com a mão esquerda bem alta pelo que a direita serve apenas para levar acabo, tudo aquilo em que a canhota acredita e desligar a caixa registadora é a primeira coisa a fazer, quando a obscuridade começa.
As noites parecem nunca acabar e mesmo quando os primeiros raios de sol conseguem coscuvilheiramente penetrar por entre as estafadas frinchas das portadas, vêm apenas aconchegar os consumidos corpos embalando maternalmente o regresso a casa.
É certo que parece um sonho. E é, mas todos os sonhos trazem no bolso um envelope lacrado com aroma a pesadelo lá dentro. Um pesadelo chamado monotonia.
E mais uma vez, repetindo em silêncio que esta será a última, transponho a derradeira barreira da realidade que é a porta de aluminío com vidro martelado e corro cegamente em busca do meu Eu.