“O oss Cfé”
O nosso “Nosso Café” é em tudo semelhante aos vossos “Nossos Cafés”, e a tantos outros “Notre Caffés” que se espalham como cogumelos depois das chuvas, por esse mundo a fora.
Dão-nos as boas vindas uns pequenos pedaços encarnados de plástico recortado que orgulhosamente se encavalitam num reclame luminoso outrora branco onde a luz está de licença de parto há mais de quinze anos, resultando o conjunto na imperceptível inscrição “O oss Cfé”,
À entra, uma porta sempre aberta em alumínio e vidro martelado, a “imitar o antigo”, com um cartaz à muito queimado pelo sol, de uma qualquer banda de musica de baile quer por ali passou.
No interior, o obrigatório electrocutor de moscas, vinte e quatro horas por dia ao serviço, um expositor de cassetes tão carcomido pelo tempo que já mal se consegue distinguir entre o “Jackpot 82” ou as anedotas do Cantiflas.
O pavimento, em tijoleira a imitar grés, foi a ultima grande empreitada de modernização do espaço.
O mobília, ainda de origem é por si só um ícone de progresso, cadeiras e mesas com estrutura em tubulares de ferro que já foi preto e assentos e tampos em melamina castanha, com as arestas tão esbeiçadas, tão esbeiçadas que mais parece terem sido atacadas por tubarões terrestres devoradores de mobiliário de péssimo gosto.
A decoração é sem dúvida minimalista, ou como descreveriam, os historiadores de arte, definitivamente “Chã”, espaço compacto, austero, pouco decorado, incentivando a relação desprendida do homem com Deus. Essencialmente tudo isto traduz-se num cachecol do Afazeres Footebol Club cuidadosamente colocado sobre o balcão, um ou outro calendário do século passado e o toque de classe, o inexplicável elemento que separa o nosso “Nosso Café” de todos os outros vossos cafés por ai semeados, uma esférica, sonhadora e brilhante bola de espelhos, que se implanta orgulhosa e solitária no tecto manchado de fumo, humidade e moscas, como que defendendo o seu orgulho gay numa sociedade envolta em bolor.
No ar, ainda a memória presente do tempo em que o balcão era desinfectado com bagaço e um pratinho com sal ostentando dois ovos que delicadamente se espreguiçam sobre o pó branco, esperando desde o início dos tempos que alguém repare neles.
E como não poderia deixar de ser, Zé Manel, talvez o homem mais antipático e mal-encarado de toda a vila, conhecido pela sua inacreditável falta de sentido comercial, e (eu tenho que dizer isto) pelos seus dentes amarelo/acarilado.
Haaa, last but not least, um leitor de cassetes com autoreverse, maltratando continuamente uma cassete que carrega o pesado fardo de trazer dentro de si obras-primas tão intemporais como o Wind of change, dos Sorpions, Nikita de Elton John ou o relato do jogo Afazeres Footebol Club X Serenos Unidos de 1981.
Em lisboa, os “Nossos Cafés”, vão dando lugar a estabelecimentos assépticos, servidos por empregados com sorriso “pepsodent”, ao som da MTV. Falta-lhes a alma de um “O oss Cfé”, para que os digamos “Nosso”.
lá onde eu vivo já não há cafés…
só pastelarias…
onde as espregadas de dentes amarelo/acarilado ouvem a Mtv.