Thursday, November 30, 2006

Chiuuuuuuuuuuuu!!!

Acordei com os ossos a gritar socorro, tíbias e perónios bramindo, debaixo da azinheira onde ainda à meia dúzia de linhas atrás, uma inocente família de cotovias foi vitimada por impiedosos raios solares. Quem te viu e quem te vê…

A chuva, depois de pacientemente me molhar a roupa, avançou com largos passos sádicos para a pele. Passeou-se sem pudor pelas mais ínfimas partes do meu corpo e não satisfeita penetrou fundo na derme, asfixiando todas as células que lhe ousaram fazer frente.

Boiando, entre purgações, fortes pontas no occipital, e com o Siboney ainda a ecoar bem alto nos pavilhões auriculares, arrastei-me até casa, onde os olhares condescendentes dos  meus progenitores me receberam de toalha na mão.

O resto do dia foi o que já se sabe…

Deitado na cama, voltei à observação intensiva de penetração das águas das chuvas nas madeiras em geral.

Decidi que a busca do meu Eu só poderia recomeçar quando todas as minhas faculdades tivesses recuperadas e como eu não vou para novo, isto irá certamente demorar uns dias.

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Monday, November 27, 2006

Te quiero Xavier

Ninguém conduz uma orquestra como o Xavier Cugat, a razão e a carne tocam-se num ponto tão invisível e tão presente simultaneamente, que é impossível ficar parado. Sobretudo quando Perfídia se sorve misturada em igual parte com vodka e tabasco.

Com o cérebro totalmente submerso nesta água-pé Marxista, sinto a razão esvoaçar no ar como um bando de pássaros no fim de uma tarde de primavera.

Descontrolado atiro-me à pista, ofuscando as rugas sombrias, as manchas no fígado, o andar torto, as ilusões infantis e fissuras cardíacas, com movimentos epilépticos em jeito de Ian Curtis e a multidão aplaude os meus passos e gestos, fazendo-me crer Nureyev ou simplesmente mais um que se procura, em fotografias de cor sépia e em reflexos desfocados de Super 8.

E aí é só sorrisos e abraços e palavras ternas com gestos carinhosos. Até Carolina me diz silenciosamente que sim, abanando três vezes na vertical o desejado rosto.

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Wednesday, November 22, 2006

Moi?

A ideia consistia em fazer um ataque rápido e cirúrgico à mente daqueles que me conhecem, procurando assim encontrar pontas, que unidas com nó lais de guia ajudem a encontrar-me.

Os corpos já se atiravam à dialéctica sem pudor nem gagueira, e a minha presença só a custo foi notada. Ao fundo da sala a minha rainha devorava um manuscrito que queria parecer Satre mas mais não deveria ser do que a receita de um bolo de manga. O carteiro José, de quem já vos falei antes, mantinha a sua eterna discussão “tête à tête”, com a bola de espelhos, só Álvaro e Nuno efusivamente me reconheceram. E que melhores cobaias poderia um cientista desejar? Da mesma idade, mesmo sexo, com os mesmos hábitos e vícios.

Sem hesitar e saltando deselegantemente os formalismos sociais perguntei a ambos o que achavam de mim…

Enfim, mais não poderia estar à espera, do que a resposta que obtive. Sintetizando, um silêncio, dois sorrisos largos seguidos de farta gargalhada, um abraço duplo e dois estridentes… “Ééééééééseeeeeeeesssssssssssssssssssssssssssssssssss oooooooooooooo maiiiiiiioooooooooooooorrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, Alquimista.

Face ao cenário, de imediato constatei que seria impossível encontrar aqui respostas cientificamente palpáveis, pelo que virei constas e encetei o regresso a casa, mas ainda antes de chegar à porta já a festa girava à minha volta como um anel de fogo encantado e copos e mais copos enchiam-me as mãos, e mãos o corpo e palavras doces a alma e a alma essa ia-se novamente esvaziando de sentido.

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Monday, November 20, 2006

Velvet Goldmine.

Isto durante o dia, porque à noite, como uma Cinderela deleitável, o ”Nosso Café” enche os seus enormes e catarrentos pulmões de opiáceos multicolores e transveste-se, por vezes de arem sem odaliscas ou de palácio ou de gruta com brilhantes estalactites.

As paredes beijes pintam-se de um luminoso carmim, o tapete Cairo, imigra para a Pérsia e a bola de espelhos inútil e descriminada enquanto o sol governa, ganha títulos e terras quando a Lua sobe ao poder e tudo e todos se movem aos seus mandos, desmandos e rotações frenéticas com luzes e brilhos de mil e uma cores.

José Manel filho assume o posto de Zé Manel pai, ou “takes over” como ele pomposamente gosta de designar a sucessão temporária ao trono.

A bebida flutua abundantemente entre copos, bocas e mentes despertas, a música, sai vibrante de um curioso aparelhometro à muito inventado por Zé Manel avó, que a compõe em tempo real, conjugando infinitas variáveis, que vão desde a temperatura exterior, à interior, quantidade de álcool consumido, nível de fumo no ar, número de gargalhadas emitidas por minuto, cm2 de pele exposta e mais um sem fim de factores de igual importância, que todos conjugados, calculados, cuidadosamente medidos e armazenados em ínfimas placas de cobre, resultam em horas e horas de alienação musical.

Zé Manel filho, desfere todos os golpes da vida com a mão esquerda bem alta pelo que a direita serve apenas para levar acabo, tudo aquilo em que a canhota acredita e desligar a caixa registadora é a primeira coisa a fazer, quando a obscuridade começa.

As noites parecem nunca acabar e mesmo quando os primeiros raios de sol conseguem coscuvilheiramente penetrar por entre as estafadas frinchas das portadas, vêm apenas aconchegar os consumidos corpos embalando maternalmente o regresso a casa.

É certo que parece um sonho. E é, mas todos os sonhos trazem no bolso um envelope lacrado com aroma a pesadelo lá dentro. Um pesadelo chamado monotonia.

E mais uma vez, repetindo em silêncio que esta será a última, transponho a derradeira barreira da realidade que é a porta de aluminío com vidro martelado e corro cegamente em busca do meu Eu.


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Tuesday, November 14, 2006

“O oss Cfé”

O nosso “Nosso Café” é em tudo semelhante aos vossos “Nossos Cafés”, e a tantos outros “Notre Caffés” que se espalham como cogumelos depois das chuvas, por esse mundo a fora.

Dão-nos as boas vindas uns pequenos pedaços encarnados de plástico recortado que orgulhosamente se encavalitam num reclame luminoso outrora branco onde a luz está de licença de parto há mais de quinze anos, resultando o conjunto na imperceptível inscrição “O oss Cfé”,

À entra, uma porta sempre aberta em alumínio e vidro martelado, a “imitar o antigo”, com um cartaz à muito queimado pelo sol, de uma qualquer banda de musica de baile quer por ali passou.

No interior, o obrigatório electrocutor de moscas, vinte e quatro horas por dia ao serviço, um expositor de cassetes tão carcomido pelo tempo que já mal se consegue distinguir entre o “Jackpot 82” ou as anedotas do Cantiflas.

O pavimento, em tijoleira a imitar grés, foi a ultima grande empreitada de modernização do espaço.

O mobília, ainda de origem é por si só um ícone de progresso, cadeiras e mesas com estrutura em tubulares de ferro que já foi preto e assentos e tampos em melamina castanha, com as arestas tão esbeiçadas, tão esbeiçadas que mais parece terem sido atacadas por tubarões terrestres devoradores de mobiliário de péssimo gosto.

A decoração é sem dúvida minimalista, ou como descreveriam, os historiadores de arte, definitivamente “Chã”, espaço compacto, austero, pouco decorado, incentivando a relação desprendida do homem com Deus. Essencialmente tudo isto traduz-se num cachecol do Afazeres Footebol Club cuidadosamente colocado sobre o balcão, um ou outro calendário do século passado e o toque de classe, o inexplicável elemento que separa o nosso “Nosso Café” de todos os outros vossos cafés por ai semeados, uma esférica, sonhadora e brilhante bola de espelhos, que se implanta orgulhosa e solitária no tecto manchado de fumo, humidade e moscas, como que defendendo o seu orgulho gay numa sociedade envolta em bolor.

No ar, ainda a memória presente do tempo em que o balcão era desinfectado com bagaço e um pratinho com sal ostentando dois ovos que delicadamente se espreguiçam sobre o pó branco, esperando desde o início dos tempos que alguém repare neles.

E como não poderia deixar de ser, Zé Manel, talvez o homem mais antipático e mal-encarado de toda a vila, conhecido pela sua inacreditável falta de sentido comercial, e (eu tenho que dizer isto) pelos seus dentes amarelo/acarilado.

Haaa, last but not least, um leitor de cassetes com autoreverse, maltratando continuamente uma cassete que carrega o pesado fardo de trazer dentro de si obras-primas tão intemporais como o Wind of change, dos Sorpions, Nikita de Elton John ou o relato do jogo Afazeres Footebol Club X Serenos Unidos de 1981.

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Friday, November 10, 2006

E se Maomé não vai à montanha…

Foram no total catorze horas de esforço em vão.

Com o cérebro a dissolver-se como gelado sobre a cama, os olhos cravados nas micofissuras do tecto branco e os 212 músculos do corpo numa tensão superior à de uma viga pré-esforçada, cheguei à deprimente conclusão que nada sei sobre a minha pessoa. E de cabeça baixa depressa entendi que o meu exame necessitava avidamente de cábulas.

Com a alta velocidade característica daqueles que procuram respostas, voei da cama em direcção ao guarda-fatos, escondi-me inconsciente nas primeiras peças de roupa que me vieram à mão, iluminada pela acanhada luz da vela sem pavio e oupa, fiz-me à estrada.

A resposta às minha dúvidas, não estando dentro de mim teria impreterivelmente que estar dentro de alguém e pelas duas horas e quarenta e dois minutos da manha, esse alguém só poderia estar no “Nosso Café”.

Antes de chegar ao portãozinho de saída percebi que a chuva caía a cântaros…

Novamente tive que por um vigoroso travão na velocidade característica daqueles que procuram respostas, pois já quase me afogava em tanta água que se embrenhava no meu corpo.

Meia volta, novo voo em direcção ao guarda-fatos. E como há males que vêm por bem, ao voltar a entrar no quarto tive que acender a luz, confrontando-me involuntariamente com um espelho, enfim escuso-me a tecer comentários, digo apenas que as calças eram do pijama.

Convenientemente vestido e com as barbatanas calçadas fiz-me à estrada.

Ao longe já conseguia ouvir o burburinho que pacientemente se ia transformando em motim, proveniente do mal afamado antro juvenil.

Após passar a escola primária, o castelo da minha rainha e meia dúzia de caminhos sem história, lá estava ela, a universidade que continha as repostas às minhas inquietações, o ponto de encontro de gerações, o decrépito monótono e deprimente, “Nosso Café”.

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Thursday, November 9, 2006

Então vá.

Após uma travagem forçada, com consequente derrapagem e deslumbre de acidente, na introspectiva deambulação pelo meu anguloso Eu, afim de proceder ao fundamental abastecimento da viatura orgânica. Vejo-me de volta ao exíguo infinito dos meus aposentos, com vontade redobrada.

Com Pink Moon de Nick Drake a embalar-me os movimentos, e uma vela sem pavio a iluminar-me as ideias, dispo-me serenamente, sem complexos, desperdícios de energia ou emoção.

E assim, exposto, com a pele a servir de pele, devolvo o meu corpo à doçura da flanela e a minha alma, à busca de mim mesmo.

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Tuesday, November 7, 2006

Considerações acerca da minha pessoa.

Constato agora, aqui deitado na cama, que passados quatro meses de convívios e relatos na primeira pessoa, em redor meu ingénuo quotidiano, pouco ou nada falei sobre mim.

Não sabeis pois, se sou alto ou baixo, de tez branca ou de faces permanentemente roborizadas.

Tal facto obrigou a uma brutal interrupção, na minha sazonal ocupação de observação intensiva da penetração das aguas das chuvas nas madeiras em geral e a uma profunda reflexão acerca da minha pessoa.

Facto é, que já passaram sete horas desde que dei início a este sinuoso percurso de introspecção, já me chamaram para o almoço, depois para o café, para o lanche, para a missa e ouço agora em stereo, gritos que exigem a minha presença à mesa do jantar e ainda nenhuma conclusão minimamente esclarecedora me assaltou a alma.

Não sou alto nem baixo, nem demasiado moreno, coisa que gostaria, nem felizmente demasiado branco, facto que acredito iria destruir irremediável e perpetuamente, o já parco relacionamento com o sexo oposto.

O meu cabelo, como alias tive a possibilidade de narrar anteriormente é por demais particular para ser alvo de considerações. Não sendo possuidor de vocabulário capaz de o descrever com mais exactidão, atrevo-me simplesmente a usar o já tão batido cliché, “só visto”.

Olhos, boca e nariz, tenho. Nem pretensiosos nem demasiado discretos, enfim, suficientes para ver, falar e ouvir fluentemente sem provocar incomodo ou embaraço a quem comigo convive.

No fundo, gosto de acreditar, como diria um amiga de Leste, que sou uma boa pessoa e ultimamente um desesperado consumidor de Nina Simone.

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Friday, November 3, 2006

Sobre os voyeurismos matinais…

Gosto particularmente de ouvir a água a embrenhar-se na madeira seca.

Sentir os pequenos gemidos e contorções de prazer, que as tábuas emitem de cada vez que um dos seus submissos poros é virilmente invadido pela torrente.

Vendo a alma para ficar na cama, de manhã, quando a casa está vazia, envolto em flanelas, na mais estática contemplação, a admirar emudecido, tão carnal fenómeno.

Escrevo estas palavras em silêncio, a tinta invisível, no tecto do quarto, pois neste preciso momento a janela de Riga que me ilumina os dias, deleita-se com um violento aguaceiro que a agride e a faz sussurrar de prazer.

Preocupa-me o vidro, que também tem sentimentos e olhos grandes e claro, por estar ali tão perto, sem o disfarce dos lençóis, tem que se sujeitar à cumplicidade do momento.

Espero apenas que não fuja, pois uma janela em auras, sem vidros, no meio de uma tempestade, é bem pior do que um guarda-chuva no deserto.
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Thursday, November 2, 2006

Lá fora está chovendo e assim mesmo eu vou correndo, só para ver o meu amor…

Seriam umas oito da manha quando sem aviso, a primeira gota irrompeu violentamente pelo céu, embatendo de surpresa numa qualquer cobertura de zinco, das que revestem os fétidos galinheiros da vila. E logo, sem ninguém dar por isso, dezenas e dezenas de outras a seguiram, lançando-se destemidamente sobre vazio, criando na aterragem uma sinfonia, que pacientemente me foi despertando, num crescendo ritmado de emoção.

Primeiro nas antenas, depois nas telhas, nos rufos, nas paredes e nos vidros, nos beirais, nos peitoris, nas soleiras e pimba no chão, amolecendo a terra ressequida por cinco meses de inóspito sol, algumas perdas e muita saudade.

E pronto, foi assim que acordei hoje, sem sobressalto, tensão, ou nostalgias anunciadas. Apenas com o aroma de terra molhada a envolver-me o corpo e com o bucólico som da chuva a embater nas janelas.

A chuva já se sabe, é um pau de dois bicos. Durante o Verão sonhamos com tardes enroladas em cobertores de lá, lareiras acesas, chás de Camomila e bolachas de canela. Mas quando ela chega, a confusão instala-se. Primeiro porque a chuva é bonita quando se está dentro de casa e depois, porque se a Primavera nos trás uma invariável sensação de rejuvenescimento, o fim do Verão carrega às costas um indomável fardo de nostalgia que não raras vezes, maquiavelicamente se associa a um sentimento de envelhecimento precoce.

Isto para não falar do trânsito, das crianças, dos pés molhados, gripes, tosses espirros, do telhado da igreja que há anos anda para ser arranjado e hoje já mais parece um coador por os raios de luz bisbilhoteiramente assistem à homilia e dia destes, também sem aviso, a neve.

Seja como for, eu sou um homem de Inverno, do odor a fumo nas roupas, do nariz vermelho, dos gorros, luvas e cachecóis, dos abraços apertados, do Uno, das noites com luzes apagadas a ouvir a trovoada e a sonhar acordado com alguém abraçado a mim.

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