Monday, October 30, 2006

Hey, that’s no way to say goodbye…

 

Com o passar das horas o fogo foi-se lentamente despedindo, deixando para trás um monte de cinzas ainda rubras e fumegantes e um inimaginável aroma a doce de framboesa.

O povo que assistiu a toda aquela tortura sem emitir um som, foi também recuando, pé ante pé, de cabeça baixa e orelhas descaídas. Até o bondoso Cura, sempre rico em comentários e conclusões, emudeceu, deixando-nos ali aos três, eu, minha mãe e meu pai, simplesmente à espera que tudo aquilo não passa-se de um sonho menos feliz.

O quarto de Ana foi limpo com lixívia e óleo de lavanda e depois fechado, como um a pirâmide, equivocamente selada sem faraó lá dentro. A chave foi atirada ao rio. Matou-se uma galinha, comeu-se uma cabidela e em silêncio despedimo-nos da doce imagem de Ana.

 

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Monday, October 23, 2006

E tudo o fumo levou…

Foi uma dantesca coluna de fumo que recebeu de braços abertos e largo sorriso a minha esbaforida chegada a casa. Não era uma nuvem, nem cogumelo, tão pouco um ser disformemente impressionista. Era uma coluna, cilíndrica, esguia, elegante e sólida, como os pilares de Niemeyer, rasgando os inóspitos céus de Brasília.

Não era cinzenta, tão pouco preta ou castanha, não cheirava a queimado nem sequer a fumo.

Era infantilmente rosa e cheirava a doce de framboesa. Em seu redor as pessoas iam-se amontoando num género de Stonehenge humano, matematicamente dispostas no terreno, como que adorando um qualquer Deus Pagão.

No interior dos olhares boquiabertos do povo, conseguia ouvir choros e lamentos. A esta altura já o pavor tinha tomado conta de mim e sinceramente, nem sei se andava para a frente ou para trás e se o aroma era a framboesa ou a dióxido de carbono.

De tropeço em tropeço, de perdão em perdão, completamente embriagado com toda aquela visão, lá consegui chegar ao núcleo ao átomo. O cenário, de um surrealismo imenso era absolutamente real. Uma pilha de móveis, roupa e objectos pessoais ardia contrariada no meio do meu quintal e minha mãe, a pirómana de serviço, despejava lágrimas em abundância suficientes para apagar a combustão.

Eram as coisas de Ana, a minha doce Ana, que ali jaziam fumegantes, numa tentativa ingénua e sangrenta de arrancar do coração aquilo que a vista já à muito não via.

Quantas e quantas vezes ouvi Ana a interrogar-se em silêncio, quantas e vezes me esquivei a responder-lhe. Ana, a minha doce Ana, pura nos sentimentos, casta nas experiências e vazia de coração, por onde andarás agora?…

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Wednesday, October 18, 2006

Chez moi?!?!?!

De repente e não mais do que repente, ainda antes da última suíça estar devidamente aparada e da sádica baforada de álcool etílico se projectar violentamente contra o meu fragilizado cachaço, um ruído estridente eriçou os cabelos que se espreguiçavam vagarosamente no chão do Aurélio Barbeiro, aproveitando os últimos raios de sol.

Antes mesmo de ter entendido que era a sirene dos bombeiros que paria tão ruidoso ciclone, já alguém gritava a plenos pulmões, - é na casa do Mudo…-.

A história é longa e talvez num futuro próximo a conte, mas o que interessa agora, é que o Mudo é o meu pai e o incêndio, pois era um incêndio, merendava em minha casa.

De nada serviram os desabafos silenciosos dos que gravitavam à minha volta. Num ápice irrompi pela porta e desatei a correr em direcção a casa, sem mesmo evitar passar em frente do palácio da rainha.

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Tuesday, October 17, 2006

Corta.

A Rainha de Copas atravessou a vila, ondeando em seu passo afidalgado, ajoelhando trunfos e manilhas com o olhar. E eu, um triste terno de paus, aqui sentado, com meia cabeça rapada, assisti à contraluz aos seus cabelos de alcatrão e a sua tez de papel a humilharem quem passa.

Moral da história, tenho pouco jeito para a sueca.

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Friday, October 13, 2006

Onde?!?!?

Não raras vezes encontro pessoas nas ruas, nos bares, nas casas, a questionarem-se silenciosamente, “o quê que eu faço aqui?”.


O gesto é comum, lábios semiabertos, olhar vago e caído, quase sempre voltado para o céu.Eu ouço-os nos seus pesarosos olhares, que por vezes parecem brados, outras apenas lamentos

O “aqui” ganha vulgarmente conotações várias, “aqui neste lugar”, “aqui neste emprego”, “aqui nesta relação”, “aqui no meio da rua com o gelado na mão”, enfim, “aqui nesta vida”

E aqui, sentado na centenária cadeira giratória do Aurélio Barbeiro consigo facilmente ouvir o seu celibatário coração a indagar aos alcatroados pulmões “o quê que nós fazemos aqui?”

Convém lembrar que Aurélio é absolutamente gago, daí que facilmente conseguem imaginar o tormento que é para ele pronunciar em silêncio, - Alcebíades, o que é que eu faço aqui?-…  

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Wednesday, October 11, 2006

Ao Aurélio Barbeiro.

Tudo correia bem se no espaço de dois anos os Metallica não tivessem passado de bestiais a bestas, arrastando com eles, todos aqueles que de negro trajavam assumindo longas e fartas cabeleiras.

 

A bem da verdade eu nunca gostei daquele barulho e sinceramente todas as noites antes de adormecer desejei secretamente acordar igual aos outros, geometricamente penteado, da direita para a esquerda, deixando longitudinalmente à caixa craniana, bem vincado o risco ao lado e transversalmente à mesma, um infinito de nervuras neogóticas, prova irrefutável da orgulhosa passagem do pente.

 

Felizmente a vida reserva-nos uma solução para cada problema e a minha chegou numa soalheira tarde de Outono, envolvida no doce odor das marmeladas e das castanhas que geralmente invadem o ar por esta altura do ano, transformando o nosso quotidiano em constantes sobremesas psicológicas.

 

Sr. Aurélio, o Aurélio Barbeiro, conhecia o meu problema desde sempre e desde sempre viveu intrigado com ele, acho que no fundo lhe afectava o brio profissional, do género do médico não consegue curar o paciente ou da costureira que não acerta uma bainha. Até que numa gloriosa terça-feira, abundantemente polvilhada por marmelada e castanhas uma caixa de madeira em Pau-santo, envolvida num delicado cartão canelado, remato com um laçarote de fio de norte, lhe foi bater à porta. Lá dentro, um mito tornado realidade, o sonho de todos os barbeiros, o Tosão de Ouro dos mestres capilares, o objecto que todos os barbeiros cabeleireiros, calistas, talhantes e enfermeiros, sonho desde o primeiro dia que vestem a impoluta bata branca, a Tesoura de Ónix.

 

A Tesoura de Ónix, não mais é do que uma tesoura, construída em Ónix. Contudo a sua banal aparência esconde estranhos e inimagináveis poderes. Cada corte é de uma precisão Helvética o que faz com que a cada golpe, os milimétricos fios de cabelo estagnem o seu crescimento por seis meses.

 E assim o meu suplício, inicialmente semanal e posteriormente mensal transformou-se num prazer bianual.É por tudo isto, que sempre que me desloco à vila, faço uma paragem no Aurélio Barbeiro. E é por isso, que depois de ter encontrado José a contemplar as cotovias e de ter alterado a minha rota, impossibilitando desta forma a obrigatória comoção em frente à casa de Carolina, aqui me encontro, sentado na centenária cadeira giratória do Aurélio Barbeiro.

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