Tudo correia bem se no espaço de dois anos os Metallica não tivessem passado de bestiais a bestas, arrastando com eles, todos aqueles que de negro trajavam assumindo longas e fartas cabeleiras.
A bem da verdade eu nunca gostei daquele barulho e sinceramente todas as noites antes de adormecer desejei secretamente acordar igual aos outros, geometricamente penteado, da direita para a esquerda, deixando longitudinalmente à caixa craniana, bem vincado o risco ao lado e transversalmente à mesma, um infinito de nervuras neogóticas, prova irrefutável da orgulhosa passagem do pente.
Felizmente a vida reserva-nos uma solução para cada problema e a minha chegou numa soalheira tarde de Outono, envolvida no doce odor das marmeladas e das castanhas que geralmente invadem o ar por esta altura do ano, transformando o nosso quotidiano em constantes sobremesas psicológicas.
Sr. Aurélio, o Aurélio Barbeiro, conhecia o meu problema desde sempre e desde sempre viveu intrigado com ele, acho que no fundo lhe afectava o brio profissional, do género do médico não consegue curar o paciente ou da costureira que não acerta uma bainha. Até que numa gloriosa terça-feira, abundantemente polvilhada por marmelada e castanhas uma caixa de madeira em Pau-santo, envolvida num delicado cartão canelado, remato com um laçarote de fio de norte, lhe foi bater à porta. Lá dentro, um mito tornado realidade, o sonho de todos os barbeiros, o Tosão de Ouro dos mestres capilares, o objecto que todos os barbeiros cabeleireiros, calistas, talhantes e enfermeiros, sonho desde o primeiro dia que vestem a impoluta bata branca, a Tesoura de Ónix.
A Tesoura de Ónix, não mais é do que uma tesoura, construída em Ónix. Contudo a sua banal aparência esconde estranhos e inimagináveis poderes. Cada corte é de uma precisão Helvética o que faz com que a cada golpe, os milimétricos fios de cabelo estagnem o seu crescimento por seis meses.
E assim o meu suplício, inicialmente semanal e posteriormente mensal transformou-se num prazer bianual.É por tudo isto, que sempre que me desloco à vila, faço uma paragem no Aurélio Barbeiro. E é por isso, que depois de ter encontrado José a contemplar as cotovias e de ter alterado a minha rota, impossibilitando desta forma a obrigatória comoção em frente à casa de Carolina, aqui me encontro, sentado na centenária cadeira giratória do Aurélio Barbeiro.