Thursday, September 28, 2006

Animal…

Antes de ser globalmente conhecido por Alquimista, chamaram-me Animal, Alcebíades o Animal. Antes der ser regionalmente conhecido por Animal e muito antes de ser apontado como o Alquimista, apelidaram-me de… menina. Menina.

Não que a virilidade alguma vez me tivesse sido posta em causa, só que a capilaridade traio-me à nascença e já dentro da barriga de minha mãe o meu cabelo crescia a uma velocidade anormal.

Por anormal refiro-me ao recorde mundial de 0,0000115cm por segundo, o que perfaz 0,10m ou 10cm no tempo total que a Terra se demora a galantear o sol, 24h ou se preferirem 1 dia.

De início era simples, ou pelo menos não era complicado. A imagem era coisa que me preocupava pouco, daí que uma vez por semana (70cm) a minha mãe se dedicava ao abate dos meus finos e levemente ondulados cabelos castanhos.

O problema foi-se descobrindo com o passar dos anos, pois ao cabo de 14 primaveras já ninguém tinha paciência para se prestar a tal ritual, ao ponto de tirarem à sorte, para saber a quem caberia a terrível tarefa de me ceifar o cabelo.

Além disso, eu próprio comecei a essa altura a revelar algumas preocupações estéticas e sociais, daí que ser tratado de menina não era algo que me cai-se bem.

Foi assim que decidi assumir, na adolescência saí do armário e num inocente grito de ipiranga capilar transformei o corte semanal em mensal.

Os Iron Maiden estavam em alta por esse tempo o que me transformou no tipo mais cool da região e por consequência ganhar o apelido de Animal, Alcebíades Animal.

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Tuesday, September 19, 2006

José!!!

Hoje encontrei por ingénua imaginação do destino, suspenso num desses tortuosos caminhos que unem umbilicalmente a minha casa ao centro da vila, o meu grande companheiro de pescarias, José.
Saí de casa apressado mas sem compromisso, calcei as botas, arregacei as mangas, verifiquei todos pertences, meticulosamente distribuídos pelos bolsos, que eu gosto pouco de ter as mãos ocupadas, bati a porta com força e fiz-me à estrada.
O sol estava ainda naquele ponto inocente de quem parece não fazer mal a ninguém, mesmo quando todos sabem que a breve espaço nada sobrevivera à sua falta de piedade.
Dois passos depois da fonte encantada lá estava ele, na timidez dos seus dois metros e sessenta, a contemplar uma mãe cotovia que incessantemente alimentava as suas rabugentas crias.
A minha relação com José tem apenas um denominador comum, a pesca. É esse o único assunto que nos une, e por mais fútil que pareça, é um inquebrável elo de aço que nos liga desde sempre.
Mas quando as primeiras palavras nos abriram a boca pelo lado de dentro, para com as suas minúsculas asas invisíveis se aventurarem no vazio, uma terrível realidade assaltou-nos a alma. Estamos fartos de peixe, e ao mesmo tempo que esta crua realidade nos escancarava os olhos, a imagem de dezenas e dezenas de pratos de trutas, foi projectada sobre a azinheira expropriando a família de cotovias.
Depois do choque inicial e de um mútuo sorriso mudo, em jeito de condescendência para com a situação, ambos olhamos as cotovias, olhamos o sol que já se preparava para fazer daquelas inocentes crianças as suas primeiras vitimas e seguimos o nosso caminho.

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Tuesday, September 12, 2006

Carolina, Carol, Carol, Carolina bela…

 

O meu problema com Carolina reside no facto de ela não me suportar. Ou melhor, o problema reside no facto de ela não me suportar e eu ansiar com todas as forças do meu frágil coração suporta-la com ambos os braços.

Durante anos a fio acreditei que o desprezo de que sou alvo fosse capricho feminino, insegurança e medo de revelar os verdadeiros sentimentos e que no fundo, também Carolina sonhava em passear de mão dada comigo aos domingos à tardinha.

Ao cabo de dez anos acabei por entender que a minha pessoa simplesmente a agoniava, ao ponto de a deixar com ares de atresia, sempre que por ironia do destino os nossos passos se cruzam. E vê-la ao domingo à tardinha a passear de mãos dadas com outros, dilacera-me o já tão maltratado peito, de onde não é raro saírem líquidos de cores variadas e texturas cristalinas, os quais, depois de passar a fase do espanto, comecei a guardar em frasquinhos de vidro transparente e expor a título de curiosidade nas prateleiras do meu quarto, sem nunca revelar a fonte. Deste cientifico feito provem o nome por que todos me conhecem, Alcebíades o Alquimista.

Às vezes ainda sonho que estou com Carolina, geralmente acordado. Sonho que a abraço, que lhe afago os longos cabelos de alcatrão, que lhe agarro o aroma com as mãos e depois de as ter cheias a transbordar o engulo de um só trago, deixando transparecer do meu interior as mil e uma cores que a felicidade transporta.

Geralmente desperto ainda mais deprimido.

 

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