Onde paras tu meu anjo?
Vinte e cinco dias dolorosamente se arrastaram, sem que a cândida voz de Ana, a minha doce Ana, quebrasse o silêncio deste lar, que cada vez mais se parece mais com convento abandonado, sem silvas nem claustro.
Vinte e cinco dias dolorosamente se arrastaram, sem que a cândida voz de Ana, a minha doce Ana, quebrasse o silêncio deste lar, que cada vez mais se parece mais com convento abandonado, sem silvas nem claustro.
Estou farto de comer peixe. Trutas…
À mais de oito dias que a nossa dieta alimentar se resume às primas do salmão. Cozidas, grelhadas, fritas, enfim…trutas.
E a culpa é toda da mãe, não da minha, da nossa.
De seis em seis anos, Sereno, o rio que rasga todo o concelho de Afazeres, vai de férias. Sem mais, de férias. Deixando para trás centenas e centenas de trutas em pânico com as guelras a barbatanear.
De seis em seis Verões o metro e vinte de água que faz as delícias de novos e velhos, enamorados ou irremediavelmente solitários, passa a um centímetro e vinte de infinita tristeza e as consequências são como facilmente se entende, por demais trágicas.
A coisa não correria tão mal se o Sereno preferisse a neve à praia. Bem vistas as coisas, um rio pouca falta faz no Inverno, mas em pelo Agosto, no mais recôndito interior, todas as gotas de água são preciosas.
Chateia-me o calor, chateia-me a falta de banhos, chateia-me não poder ver Carolina em biquíni, com a sua pele branca insultada por ondulantes cabelos negros, nos meus sonhos suspensos sobre um arco margaridas. Mas neste momento, sentado à mesa, o que realmente me chateia é esta estúpida truta acastanhada, submersa em arroz de tomate e a visão de todas as suas irmãs, irmãos, primos, tios e afins que ainda se espreguiçam no congelador, depois de terem sido apanhados à pazada, no lunar leito do Sereno
As aguas frias do Norte sempre me fascinaram mais do que os fotogénicos caldos dos trópicos, com as suas palmeiras e águas transparentes, frequentemente esventradas por peixes de mil e uma cores e formas.
Talvez porque eu goste de sentir a pele esticada e os músculos a contrair após cada mergulho, ou simplesmente porque no Norte as mulheres são mais pudicas e em relação a isso já se sabe, quanto maior o pano, maior a fantasia, e não há realidade, por mais bela que seja, que consiga ultrapassar em agitação hormonal juvenil a imaginação.
Gosto de sentir o sargaço escarlate a enrolar-me nos pés e a areia revoltada, instigada pela marcha incessante e frenética do ar, que também vai a banhos mas ao contrário de mim, busca geralmente paragens mais quentes, a sul.
O esbatido listado das barracas, a falta de classe dos meus vizinhos de toalha, sublinhada pelas suas peles flácidas e brancas e por frequentes gritos e agressões maternas, garrafões e tachos de feijoada aquecida “in loco”.
Fomos sempre para o mesmo sitio, a mesma praia, a mesma barraca, a mesma casa alugada, as mesmas conversas, preocupações e recomendações. Gostaria de dizer que foi ali que pela primeira vez me apaixonei, que dei o primeiro beijo, que quase sufoquei envolvido nos infinitos cabelos granat de uma jovem bronzeada. Mas infelizmente ao fim de muitos anos e de muitas idas, continuo um total desconhecido nessa terra, restando-me a fantasia e alguns olhares indiscretos para saciar o meu ansioso músculo cardíaco.
Quando fecho os olhos e imagino a praia, fortes raios cor de ouro invadem a minha retina, é assim que a sinto, cor de ouro. É nesta cor que me recordo de rebolar pelas dunas, de ser amparado por minha mãe, da fobia descontrolada que a água provoca a meu pai, obrigando-o em dias de maior calor, a molhar não mais que os tornozelos e de Ana, a minha doce Ana e as suas intermináveis colecções de pedras, pedrinhas, conchas e conchinhas, as quais constato agora, mais não deveriam ser do que fugas do seu também ansioso músculo cardíaco.
Mas infelizmente este ano, e pela primeira vez em muitos… pela primeira vez em todos, não vamos à praia.
Se a temporária mutilação divina de que minha avó foi alvo, amolgou o meu seio familiar, Ana, a minha doce Ana destruiu-o completamente.
Lembrar-se-ão da sua intempestiva fuga. Lembrar-se-ão do cortante Alcebiadesssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss, que ela projectou no ar à sua passagem, ao mesmo tempo que se evaporava entre o orvalho e os salgueiros?
Passaram dezoito dias e dezoito noites, os salgueiros ainda lá estão, o orvalho tem religiosamente voltado todas as noites e partido todas as manhas (dizem que anda de caso com a Lua). Mas Ana, a minha doce Ana ainda não voltou.
Deveria a esta altura esclarecer o esfíngico desaparecimento do órgão pensante de Dona Léumil. Mas à falta de explicação concreta e de adjectivos que enriqueçam o relato, limito-me apenas a dizer que lá pelo meio da tarde, naquele segundo invisível onde o sono se bate ferozmente com as obrigações, ainda com meu pai estatelado no chão frio da cozinha e minha mãe em formato Nossa Senhora de Fátima, a incontinência galopante voltou em brandos, os bicos de papagaio morderam como nunca, atirando Dona Léumil para o seu enfermo e aparentemente eterno leito.
Talvez ninguém consiga explicar o sucedido, para mim fica quem sabe a ultima grande lição da anciã senhora…
“Ás vezes sabe bem perder a cabeça…”