40 min. depois de acordar…
Chocolate……………………………………………………………………………………………………………………
Chocolate……………………………………………………………………………………………………………………
E por ser o mais novo, por estudar, por ouvir Einstürzende Neubauten, competia-me neste momento ter a mente mais aberta para este tipo de fenómenos. Mas mesmo assim, fui assaltado por uma colossal retracção e só a custo, arrancado das minhas entranhas com um saca-rolhas gigante consegui a medo disparar um interrogativo:
Então avó, estás bem????????
Importa a esta altura dizer, que a minha estimada avó padecia de inúmeras maleitas, que variavam entre os “bicos de papagaio” e uma incontinência galopante, o que tudo somado, a tinham atirado para a cama já à alguns anos e de onde todos acreditávamos ela não sairia mais.
Mas ali estava ela, de pé, ágil e com a astucia no olhar, perdida algures entre os lençóis de linho do verão e flanela de inverno que lhe têm servido de pele nos últimos anos.
Nisto, um terrível estrondo quebra o silencio do meu espanto. O meu pai projectou com bastante violência a cabeça na mesa, o que resultou num galo digno de uma arrozada de domingo.
Parabéns Alcebíades…
Voltando de novo o olhar para a minha avó, percebi que ela não se tinha esquecido, hoje é o meu dia de anos.
Sorrateiramente ela tirou de trás das costas um embrulho de papel florido, com um laço verde água.
É para ti.
A medo estendi as mãos para alcançar o presente, agarrei-o firmemente, agitei-o, naquele gesto infantil de curiosidade, e lá o abri…………………….
Lá de dentro saltaram reluzentes, em toda a plenitude do couro 2 chinelos, exactamente iguais aos que eu em jeito de penitencia trazia calçado.
Nisto, um novo estrondo assalta a cozinha, o meu pai tinha capitulado definitivamente no chão. A pancada foi tão grande que o julguei morto, mas o olhar incrédulo mantinha-se bem vivo na sua face branca.
A minha mãe essa continuava com o ar de Nossa Senhora de Fátima.
E então Alcebíades, queres café ou chocolate?
Foi no meio de uma enorme algazarra que acordei hoje. O sol ainda mal tinha despertado e o orvalho da noite mantinha-se reluzente nos campos, quando os gritos das mulheres da casa me irromperam pelo quarto.
O sobressalto foi tamanho, que só as toscas tábuas do chão conseguiram amparar o meu ainda sonolento corpo. Confesso que ainda assim tentei voltar a adormecer, mas o esforço tornou-se inglório quando Ana, a minha irmã mais velha, me arromba a porta do quarto com as saias arregaçadas, os cabelos em pé e um olhar aterrorizado gritando a plenos pulmões,
Alcebiadesssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss.
Ainda assim pensei, ah é um pesadelo, rebola na cama e isto passa… Mas a cama já se erguia a 90cm de mim e o meu leito era agora o chão. Não, definitivamente isto não era um pesadelo.
Ana sustentou o dessssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssssss (de Alcebíades) até ao infinito, transformando a sua habitual voz doce e pausada, na ronca do nevoeiro.
Não sei se pelo sono se pelo espanto, a primeira palavra demorou a sair da minha boca, e quando lá consegui atirar um “sim” interrogativo, já Ana corria ao fundo do corredor. Calmamente tacteei o chão com os pés, procurando os chinelos de pele que me haviam sido oferecidos pela minha avó no ultimo Natal, senhores de um torturante desconforto, mas com os quais eu tenho pacificamente de conviver, por carinho à senhora. Depois de os ter calçado avancei confiante em direcção ao epicentro do tumulto, o qual vim rapidamente a constatar ser a cozinha.
A histeria tinha entretanto terminado e um silêncio gélido imperava por entre as rendas, os bibelôs e o inconfundível odor a óleo de cedro que caracteriza a minha casa.
A cozinha lá estava, dominada por uma luz branca e estática. Ainda de fora vi a minha família, pai e mãe, Ana a esta altura já tinha desaparecido entre os campos e o orvalho. Eles ali estavam, como que mortos, brancos, imóveis e com o queixo a roçar sensivelmente os joelhos. O meu pai com as mãos sobre a mesa e minha mãe a segurar com elas o peito, naquele jeito de Nossa Senhora de Fátima que as mães tão bem fazem.
O cheiro a café era a única coisa familiar em tudo aquilo. Ao fundo, junto ao fogão, e sem melhor descrição, lá estava a minha avó, parada, de pé, com os braços caídos,… e sem cabeça. À medida que o meu queixo se ia lentamente aproximando dos joelhos, de notar que a esta altura eu estava de pé, e a minha face, ainda com aquele rubor pós leito, se ia transformando numa folha de papel imaculadamente branca, a minha avó perguntou-me
- Alcebíades queres café ou chocolate?